Por uma anomalia apparentemente estranha,{25} mas que se torna bem logica perante a reflexão, o ciume que tinha por Valentina, foi a causa de que, durante os annos da juventude, Joanna se ligasse a elle mais intimamente. Invejar alguma pessoa é pensar n'ella. É sentir por ella. É, por uma d'estas dualidades desharmonicas, tão familiares á nossa natureza emotiva, sentir ao mesmo tempo attracção e repulsão pela sua presença. A inveja não é, a principio, nem é nunca o odio puro. É mais e menos, por isso que com ella ha sempre de mistura uma admiração dolorosa, involuntaria, revoltada, mas uma admiração em todo o caso, por consequencia, uma especie de amor. Assim se explicam na existencia dos artistas, por exemplo, aonde esta paixão complicada tem como que o seu dominio proprio, as alternativas de exagerada admiração e de descredito entre dois rivaes, tão sinceras quanto são contradictorias.
Dos treze aos dezoito annos, esteve Joanna persuadida de que não tinha melhor amiga do que Valentina, e era verdade, no sentido de que nenhuma das suas companheiras d'aquella epocha lhe causava impressões tão fortes. Ou fosse porque a fascinassem as bellas qualidades de sua prima, ou porque se revoltasse contra ellas, inteiramente, com uma amargura irritada, tinha-a sempre no pensamento. Quando entraram juntas na sociedade, modificou-se por algum tempo, a sua sensibilidade mal equilibrada, por isso que Joanna teve, então, pela primeira vez, um successo superior ao de Valentina. Esta, que se salientára sempre, emquanto as duas viveram n'um meio restricto, pela verdadeira{26} seriedade, pela delicadeza simples, pela harmonia e suavidade de todo o seu ser, passou logo ao segundo plano, quando começaram a figurar n'um outro theatro. Havia em Valentina uma predilecção especial pela modestia e pelo retrahimento, e em Joanna um desejo de se divertir e de brilhar que faziam d'uma a mais desconhecida das comparsas, n'uma primeira visita, jantar ou baile, e attrahiam em volta da outra todas as attenções tão superficiaes, mas tão estonteantes, de que as «coquetes» ingenuas são muitas vezes victimas, n'essa edade da transição em que nas mulheres desponta o desejo de agradarem.
O caso é que Joanna se matrimoniou logo no primeiro anno do seu commum debute—e primeiro do que sua prima! A ancia d'este triumpho—o mais lisongeiro para as mulheres—não foi extranha á facilidade com que deu o «sim» ao pedido do barão de Node.
É preciso acrescentar que este casamento satisfazia ao completo edial que paes, desejosos d'um bom partido para suas filhas, poderiam esperar no anno da graça de 1890. O noivo era uma figura esbelta, possuia um bello nome, uma boa furtuna e o prestigio que exercem, apezar de tudo, mesmo sobre pessoas de linhagem distincta que viveram durante muito tempo na provincia, «os parisienses».
Julio de Node era frequentador das corridas; pertencia a um dos melhores clubs e salientava-se entre essa «coterie» que faz a moda no verão, em Deauville; nas caçadas, nas margens do Sena e Oise, no outomno; em Pau e na Riviera, no inverno{27} e na primavera em Paris, n'esse Paris que vae da praça Vandome a Longchamps.
Joanna via-se, antecipadamente, gosando uma vida de continua agitação n'esse turbilhão que tanto seduz muitas mulheres.
O seu orgulho por causa d'esse casamento era tão profundo, tão completo, que acabara de cicatrizar a antiga ferida da inveja. Taes cicatrizes estão, porém, sempre tão proximas de reabrir!
Nunca, antes, nem depois, estimou tão intensamente sua prima.
Chegára ao extremo de a lamentar, quando comparava o brilhante destino que a esperava com o futuro da supplantada Valentina. Mais tarde teria ella que lhe inspirar egual piedade, mas sem ser fingida.
Faz-se só justiça reconhecendo, para explicar, ou antes desculpar as amarguras das suas desillusões, que se este casamento tinha, a despeito das apparencias seductoras, motivos para não ser muito venturoso, tinha tambem outros para não ser completamente infeliz.