Quando viu Valentina fechar a porta da carruagem que a conduzia para um recanto occulto d'esse grande Paris—tão propicio a encontros mysteriosos,—invadiu-a uma violenta commoção.

N'um só momento, o procedimento da sua orgulhosa prima tinha-a rehabilitado aos seus proprios olhos, rebaixando aquella ao seu nivel.

E, posto que o facto de Valentina ter abandonado a carruagem á porta do grande armazem, lhe provasse que a sua primeira supposição era racional, a sua excitação tornára-se tão viva que se não sentia capaz de esperar—o que era natural—que a senhora de Chalinhy voltasse, a fim de verificar{38} a attitude d'esta, interrogal-a mesmo e observar o seu natural embaraço.

Bastar-lhe-hia metter-se no coupé abandonado, de maneira que no momento da entrada, depois da visita clandestina, a marqueza a encontrasse na sua frente e fosse violentada a confessar tacitamente a falta, só pela natural confusão.

Um tal procedimento exigia, porém, um sangue frio de que Joanna se não julgava capaz. Mostraria logo pela sua propria perturbação, que espionava a rival. E esta, advertida por aquella fórma, dominar-se-hia, depois de passada a primeira impressão. Posta de sobre aviso, procuraria, de futuro, desnortear qualquer curiosidade que pretendesse penetrar mais intimamente no segredo que, até ao presente, tão bem tinha sabido occultar. Não. Para chegar a saber se effectivamente Valentina tinha qualquer mácula na sua vida, a principal condição era que esta nem sequer suspeitasse da descoberta. A primeira idêa de Joanna de Node, em presença do sobresalto d'uma tal revelação, foi fugir, para não ser vista pela prima, e ir para casa. Lá meditaria sobre o meio mais seguro de não perder o fio que um phantastico acaso acabava de pôr nas suas mãos, e que não abandonaria mais. Parecia-lhe até imprudente que qualquer pessoa da sua intimidade a encontrasse na visinhança do grande armazem, e podesse denunciar a sua estada ali, n'esta tarde, á marqueza de Chalinhy.

Só conseguiu tranquilisar-se, depois de ter subido para a carruagem, e dito ao cocheiro que a conduzisse á rua Barbet-de-Jouy.{39}

—«É possivel?...» repetia ainda emquanto o cavallo d'aluguer da sua carruagem seguia ao longo das Tulherias, e depois pelo caes e ponte de Solferino. Mesmo contra sua vontade, tantas provas de seriedade dadas por Valentina desde a mais tenra infancia, influenciavam no seu espirito, destruiam a suspeita, luctavam contra a injuriosa hypothese sugerida repentinamente pelo indicio implacavelmente revelador.

Ha mulheres que praticam a caridade occultamente.

E se Valentina fosse a casa d'alguns pobres, modestamente, sem ir na sua carruagem, porque esses pobres habitavam n'alguns bairros escusos, onde a sua equipagem causasse escandalo, ou o cocheiro e trintanario corressem risco de ser insultados?...

Mas n'este caso teria entrado no armazem como uma criminosa, temendo evidentemente ser seguida? Sahiria com aquella precipitação e em taes condicções?