Somos geralmente tanto mais fracos quanto menos felizes, e ella tinha necessidade de aproveitar toda a fraqueza de Chalinhy para a realisação das combinações que sempre julgára tão longinquas, tão indefinidas, quando o inexperado acontecimento d'essa tarde, corroborado pela indiscutivel mentira da marqueza, vinha tornal-as precisas, pela primeira vez.{56}

[IV
Realidades]

Taes combinações—ou, mais propriamente, tal combinação era o divorcio de Chalinhy. Com a natureza suggestionavel que Joanna lhe conhecia, como não seguira por este caminho desde o principio? O acaso pozera-lhe nas mãos uma tal arma! Não devia tentar utilisal-a? Vimos já que entre os sonhos que lhe attenuavam as amarguras de mulher aviltada, o mais phantastico, mas tambem o mais permanente, era o de um novo casamento. Mas para isso era necessario que fosse livre. Vimos tambem que esperava que essa liberdade viesse da iniciativa do marido, conforme o tal artigo do codigo, mais ou menos rigorosamente interpretado. Esta iniciativa, tinha dito muitas vezes comsigo mesma, tomal-a hia, em todo o caso, ella propria, se algum dia se lhe proporcionasse occasião propicia para um novo casamento, e essa occasião deparava-lh'a o destino.

Era a amante de Chalinhy. Tinha o direito, na conformidade do codigo feminino, de provar que elle a tinha seduzido, por isso que fôra o seu primeiro e unico amante, e que portanto, a devia desposar, se um dia fossem livres...{57}

—Livres!...

—Esta palavra, sempre a mesma, a perseguil-a, como um retornello d'esperança. Livres? Podia sel-o com um processo judiciario, e Chalinhy podia sel-o tambem se a mulher o enganasse e tivesse a prova d'isso. Mas quem lhe forneceria essa prova? Seria ella mesma? A tentação de denunciar o segredo surprehendido tinha ao principio tocado ao de leve o espirito da invejosa mas repeliu-a desde os primeiros momentos. Repelliu-a, e, comtudo, pouco a pouco, foi-se tornando mais persistente. A prova está na insinuação enygmatica, tão perfidamente feita no principio do jantar, em casa da Sarliévre. O sobresalto de pundonor que a levára a repetir depois as suas proprias palavras, dando-lhe uma interpretação anodina, duraria ainda? Tel-o-hia affirmado com a maior energia se a interrogassem quando regressava da soirée—debaixo da impressão da promessa d'uma entrevista com o marido da prima. Mas n'aquelle momento, deitada na cama, e passando em revista atravez do seu espirito tão insignificantes incidentes com tão importantes consequencias, teria apenas objectado que no fim de contas havia muitos meios para chegar a conhecer a verdade.

Pois não era facilimo que o acaso, que lhe deu a conhecer a intriga de Valentina, se reproduzisse com qualquer outra pessoa! E porque é que essa outra pessoa não havia de ser o proprio marido? Uma mulher que tem na sua vida uma aventura occulta, commette geralmente imprudencias; tinha sido uma verdadeira imprudencia a mudança de{58} trem n'aquella tarde; e então a maneira como Valentina explicava o que tinha feito n'essa mesma tarde, equivalia a uma completa confissão.

«Se Chalinhy descobre tudo, não tenho nada de que me penitenciar, e Valentina não poderá lamentar-se se occupo um logar que não póde ser d'ella... Mas o que ha a descobrir? Que tem um amante?

«Quem é? Passa esta semana fóra de Paris, não saberei nada. Tanto melhor, desconfiará menos de mim.

«Ficará para quando voltar... Em todo o caso, ámanhã não deixarei Norberto pronunciar sequer o seu nome... A minha dignidade exige-o. Não saberá nada por mim!...»