—«Que tens então?» perguntou Joanna.
—«Um grande cançaço, e uma violenta dôr de cabeça. Quiz ver-te, para te pedir desculpa por não ter ido hontem á Opera. Mas não podia... Estiveste até ao fim?»
—«Estive.»
—«E acompanhaste o Norberto?» perguntou a senhora de Chalinhy.
«Elle dispensou a carruagem...»
—«Chegámos ao ponto melindroso,» pensou para si a amante.
«Recebeu-me para me fazer esta pergunta. É o pretexto para uma scena? Uma scena! Não a terá...». E disse, em voz alta:
—«Não. Offereci-lhe um logar na minha carruagem e elle recusou, dizendo que tinha d'ir ao club...»
Pareceu-lhe—a penumbra é muito enganadora—que um vivo rubôr subira ás faces descoradas da marqueza de Chalinhy e que os seus olhos denunciaram uma muito extranha emoção; mas, no seguimento da sua idéa, não interpretou devidamente estes signaes, tão faceis comtudo de comprehender. Não via n'elles a prova de que Norberto{89} adivinhou e muito bem que a sua traição fôra revelada, d'uma maneira fulminante, áquella de quem tão facilmente tinha abusado! Um conjuncto de circumstancias muito casuaes produziu esta revelação mais tarde ou mais cedo inevitavel; mas a sua coincidencia com a descoberta feita pela propria Joanna na vespera, dava ao acontecimento uma gravidade decisiva. Eis os factos em toda a sua simplicidade:—Julio de Node, como a mulher, pensava tambem em restabelecer a sua casa, cada vez mais compromettida, por meio d'um novo e rico casamento.
Offerecia-se-lhe agora uma boa occasião. Precisava por isso, da mesma maneira que Joanna pensára, fazer transformar a acção de separação em divorcio. Esperava que a mulher lhe não levantasse difficuldades.