—«Esta tão doente como eu», pensou Joanna. «O meu instincto tinha razão. A enxaqueca é fingida... O que quererá ella? Não vejo claro nos seus designios. Em todo o caso é forçoso tomar-lhe a dianteira. Entre mim e Norberto ha apenas um obstaculo, acabei de o reconhecer ainda ha pouco: as illusões que tem a seu respeito. Ella sabe-o tambem como eu... Que eu seja inepta! Foi para adivinhar se tinhamos fallado a seu respeito que me chamou ao seu quarto. Comtudo se reconhece que me calei, vae proceder... Ah! tanto peor para ella; é a guerra». E repetiu com uma profunda accentuação: «É a guerra!»
A inveja inconsciente, amontoada n'ella por innumeras impressões da infancia e da juventude, renovou-se com grande intensidade. Esqueceu, por isso, as regras mais elementares da probidade feminina e as observações que fizera para comsigo{94} mesmo, em face da sua consciencia, depois do encontro no grande armazem, na outra semana, e na vespera, quando voltava da investigação policial. Eis ahi a rasão porque n'essa noite, ao regressar, proximo da meia noite, do club, o marido de Valentina encontrou entre a correspondencia da ultima distribuição uma carta, cujo endereço, escripto em lettra tombada e evidentemente disfarçada, o impressionou logo. Trazia a marca da estação da praça da Bolsa.
Abriu-a com o presentimento justificado pela infame carta anonyma, que continha sómente as seguintes palavras, traçadas com a mesma lettra disfarçada: «Um amigo do Conde de Chalinhy convida-o a vigiar o n.º 11 da rua Lacépède. A marquesa de Chalinhy esteve ali ainda hontem ás tres horas da tarde. Com quem? É o que sem duvida interessa ao marquez... A bom entendedor...»
Trazia como assignatura: «Alguem do Club...»
[VI
Orgulho de homem]
O primeiro movimento de Chalinhy, depois de ler e reler a abominavel carta, foi amarrotal-a com a repugnancia desdenhosa que merecem taes missivas, e deitou-a no fogo quasi extincto do fogão{95} do quarto. O seu segundo movimento, como ouvisse approximar o creado, que havia chamado, foi tornar a apanhar o papel denunciador que as brazas do fogão tinha apenas enegrecido nas extremidades e metel-o na gaveta da banca de cabeceira, d'onde a tirou de novo logo que ficou só. Sabe-se que o auctor d'uma carta anonyma, tornando-se culpavel d'uma tão despresivel acção, destruiu de golpe todo o credito do seu testemunho, e, por isso, a melhor maneira de o punir é annular a sua preversidade, desprezando-a.
Mas, apesar d'isso, noventa por cento das vezes é essa preversidade que vence a nossa razão. Essas phrases escriptas propositadamente para nos ferirem n'um ponto bem vulneravel, e que, pelo facto de não terem assignatura não deviamos ler, lemol-as palavra por palavra.
Deixamos cada syllaba injectar-nos o seu mortal veneno, sentimos rugir dentro em nós a impotente e dolorosa cholera do homem ultrajado, que não sabe d'onde vem a tempestade, e que, não tendo a faculdade de se vingar d'ella, não tem força para a esquecer.
—«Mas o que é isto?... O que é isto?...» É naturalmente a primeira pergunta suggerida pela cholera. Foram tambem as palavras que o marido de Valentina repetiu, com uma energia de furor sempre crescente, á medida que as phrases, que insultavam mais vivamente a sua honra de esposo, se tornavam cada vez mais nitidas. Analysou, depois, demoradamente, todos os caracteres d'essas phrases e não chegou a descobrir um unico traço{96} que correspondesse a uma lettra sua conhecida, tão grande foi a habilidade de Joanna ao confeccionar essas funestas linhas. Levou a sua precaução até empregar meia folha de papel do usado no club de Norberto, porque entre a correspondencia do marquez encontrou uma carta que d'ali lhe havia escripto, com a terceira e quarta paginas do papel completamente em branco. Chalinhy reconheceu logo o papel, e viu n'elle o indicio de que o insulto provinha d'um dos consocios com quem se encontrara todos os dias.
Teria estado com elle n'essa mesma noite?