É o grande perigo para os casaes que vivem constantemente no grande mundo. O marido e a mulher cumprem ali uns deveres de etiqueta que acabam por modelar o seu viver intimo e conjugal pelo mesmo typo da existencia exterior e social.

Quando se veem, pela manhã, é para fallarem das mais insignificantes questões que se prendem com as sahidas constantes: quem se deve convidar para jantar, para ir ao theatro, que convite se deve acceitar.

Alguns acontecimentos dos salões que frequentam e do club, e passou-se uma hora sem se trocar uma palavra verdadeira.

Almoçaram e ainda mesmo que não esteja presente nenhuma pessoa das relações, os creados na constante permanencia junto d'elles para os servir, evitam aquella familiaridade que faz a bonhomia, um pouco vulgar, mas tão propicia á boa harmonia,{103} á união, das modestas mezas burguezas.

Mais tarde quando os filhos são já crescidos a professora e o preceptor constituem mais um elemento de retrahimento, durante a refeição. Logo que termina, o marido vae, sem demora, tratar dos seus negocios, fazer visitas, ao club; a esposa passa o tempo na rua, em cumprimentos e diversões compativeis com o circulo sempre crescente das suas relações parisienses.

Jantam fóra, ou teem convidados para jantar. Vão ao theatro.

Podiam contar-se as noites que passam em casa, só, na verdadeira intimidade conjugal, e teem até aposentos separados—como os marquezes de Chalinhy.

Regressam silenciosos e concentrados, sem mesmo quererem saber um do outro.

Esta ignorancia reciproca de dois conjuges que vivem debaixo do mesmo tecto, recebem juntos e representam juntos na figuração quotidiana d'uma existencia da moda, é um dos phenomenos mais incomprehensiveis para os observadores de fóra.

Só assim se explica, principalmente da parte dos homens, determinadas cegueiras que seriam deshonrosas se não fossem produzidas pela mais poderosa das causas de illusão: a cohabitação sem sinceridade, sem franqueza.