Augmentou quando os seus pés tocaram no pavimento da rua maldita. Entrou n'ella pelos quarteirões superiores, que a rua Monge separa dos inferiores, de maneira que, não vendo logo nas duas linhas de casaria nenhum predio que correspondesse aos signaes do pavilhão, teve um momento de duvida, e, portanto, de allivio.

A inspecção dos numeros bem depressa lhe fez comprehender o seu erro. Deu mais alguns passos e do lado dos numeros impares apparecia a casa mysteriosa, tal como Joanna lha havia descripto: com as grades de ferro das janellas do rez-do-chão pintadas de preto, a porta escura elevada por trez degraus, as sacadas do primeiro e do segundo andar burguezmente guarnecidas de bambinellas de musselina, e o muro do jardimsinho com as suas tilias.

Era mais de meio dia, e o sol d'esta bella tarde de novembro estava limpo do nevoeiro que o velára durante a manhã. O céo azul pallido, onde fluctuava uma humidade doce, banhava os ramos das arvores meio despidas.

O vento destacava d'ellas, de quando em quando, uma folha côr d'ouro, que volteava lentamente e vinha algumas vezes cahir para fóra do muro. A alegria da hora do almoço enchia com a sua expansão a modesta rua. N'uma casa de pasto, de má apparencia, em cujo frontespicio estavam escriptas as seguintes palavras, cheias de promessas: «Refeições baratas», vinham instalar-se varios operarios.{120}

Duas aprendizas, raparigas ainda, da lavandaria proxima, sahiam em cabello para irem comer, á pressa, a casa da familia, no fundo d'algum pateo de qualquer das travessas visinhas.

Algumas das janellas do pavilhão estavam abertas, e sahia fumo por dois tubos de chaminés. Se o honesto aspecto da casa havia surprehendido bastante o marquez de Chalinhy, estes indicios que mostravam ser ella habitada regularmente, mais o espantavam ainda. Não estava, então, deante da casa suspeita escolhida por dois amantes que querem ali encontrar-se, de vez em quando, durante algumas horas, occultamente. Mas, então, o desconhecido que Joanna viu chegar em carro de aluguer, era o habitante permanente d'aquelle casa? Era pouco provavel, em vista da sua attitude impaciente do homem que chega tarde a uma entrevista amorosa, e que manda esperar a carruagem para tornar a ir n'ella. Quanto mais o marido de Valentina estudava o aspecto mudo d'essa casa mais o seu frenesi dos primeiros momentos, misturado d'uma aguda curiosidade, acabava por o impellir aos actos mais oppostos ao seu caracter. Avistando um ferro velho que fumava no seu cachimbo á porta da locanda, que ficava a alguns passos de distancia, avançou bruscamente para elle e sem mais preambulos:

—«Queres ganhar uma nota de cem francos?» perguntou Chalinhy.

—«Ixo não se pergunta» respondeu o interrogado. Era um dos muitos ferros velhos que tanto abundam n'aquelle bairro, um Auvernhez de cara{121} redonda, que pronunciava o xim classico dos naturaes de Saint Flour, por o «sim», apezar de viver ha trinta annos em Paris. O seu olhar vivo denunciava a esperteza campesina tão peculiar n'essa classe de vendedores ambulantes, que se fornecem das casas de bric-á-brac. Com a prudencia innata d'um filho do Cantal, acrescentou logo—sempre com a mesma pronuncia tão pitorescamente caracteristica—«Ixo depende do trabalho que tiver de fazer.»

—«Tens apenas que me responder a uma pergunta», e indicou o pavilhão: «Quem móra n'aquella casa?»

—«N'aquella casa?» respondeu o futuro antiquario, com uma finura nescia, «é o seu dono, está claro!»