Foi desde então que deixou a sua instalação no boulevard Malheserbes, para se refugiar ali, n'uma casa mais modesta, mas que não lhe recordasse constantemente a creança tão tragicamente perdida.
Este detalhe prova bem quanto um tal homem tanto em contacto com os soffrimentos da humanidade, era sensivel, apezar da sua apparente severidade e indifferença e da dureza do seu penetrante olhar. Eis tambem a justiça do motivo porque o brilho dos seus olhos feriu Joanna de Node, quando o observou ao descer da carruagem. O mesmo brilho agudo, como a lamina d'um bisturi feriu tambem Chalinhy, emquanto lhe descrevia o ataque que acommettera o sr. Dumont. O medico{134} estava assentado ao fogão, n'uma pequena sala que servia de gabinete de trabalho a sua mulher, vestia uma sobrecasaca preta, de luto, que não abandonou mais desde a morte do filho, e á medida que o marquez proseguia na descripção, o seu rosto, d'uma expressão tão energica, assombrou-se visivelmente:
—«Está muito doente, não é verdade?» perguntou Chalinhy.
—«Muito», respondeu Salvan. «Está á mercê do mais pequeno abalo. É mesmo espantoso como tem resistido a tanto, é espantoso!... Teve o primeiro ataque ha seis annos. Vinte vezes o tenho considerado perdido; mas tem uma tal vontade de viver!... E quando verdadeiramente se quer viver, vive-se... No entanto, devo dizer-lhe que sem os cuidados das senhoras de Chalinhy, não teria resistido. Teem sido admiraveis de dedicação as duas. As suas visitas é que o prendem á vida... Tambem se resolveu a ir vêl-o, fez bem. As dissensões de familia devem desapparecer deante da morte... Espero que não será ainda hoje, comtudo não ha tempo a perder, estarei lá dentro de vinte minutos. Póde annunciar-me.»
Deus! como Chalinhy, escutando estas palavras que mais escureciam ainda o enygma, desejaria interrogar o professor, convidando-o a explicar-se. O que aproveitaria com isso? Mesmo que a sua honra o não prohibisse de entrar n'um assumpto que envolvia uma mentira por parte de sua mãe e de Valentina, não era evidente que Salvan acreditava no pretexto de dissensões familiares, imaginado{135} pelas duas mulheres para justificarem a sua presença á cabeceira do leito d'este moribundo, em que outro homem da familia ali fosse? O que lhe era então esse senhor Dumont?
Que sagrado dever vinha cumprir junto d'este infeliz, n'um bairro escuso, primeiro sua mãe e depois sua esposa—occultando-se d'elle, como se tinham occultado, com a prudencia de criminosas?
Tinha sido necessario para que conhecesse o segredo d'estas visitas, um tal concurso de circumstancias! E eram innocentes estas visitas, demonstrava-o o testemunho do medico declarando-as nobres e da mais benefica caridade. De que tinham então receio as duas mulheres? Que elle, filho e marido, lh'as prohibisse? Não. Qual seria então a imperiosa razão que as dominou, a ponto de nem ao medico terem dito a verdade, visto que inventaram a fabula d'um parente malquisto.
E o doutor Salvan acreditou na existencia d'este parente, occulto, dos Chalinhy? Porque? Não entraria ahi o segredo profissional.
Por outro lado, não acontece muitas vezes que um membro deshonrado d'uma familia se esconde em Paris, mudando de nome? Com certeza que sua mãe e Valentina tinham contado esta historia ao doutor, mas a verdade é que tal historia era falsa. Se fosse verdadeira, elle Norberto, o actual chefe da familia, conhecel-a-hia... Estes retratos, porém, no salão do doente, representando-o a elle, á mãe, á mulher e aos filhos, em differentes idades, o que significavam?{136}
A perspectiva agora aberta deante do seu espirito infligia-lhe um tormento tão forte, que o impedia de sentir a consolação de ser livre d'uma outra suspeita, da que, duas horas antes, tinha a respeito da esposa.