Mas porque... E encontrando na sua crescente affeição, força para confessar o seu degradante accesso de ciume, disse:

—«Valentina venho da rua Lacépède.»

Emquanto pronunciava estas palavras de que só ella no mundo, visto que a mãe de Norberto tinha morrido, podia medir o tragico alcance, ditas pela sua bocca, olhou-o com espanto e assombro. Repetiu, como se não podesse acreditar nas palavras que tinha ouvido:

—«Vens da rua Lacépède... Foste lá depois de me deixares, tendo-te fallado da maneira porque te fallei! Foste lá...»

—«Sim,» respondeu em voz baixa e com a firmeza oppressa mas decidida d'alguem que, querendo reclamar um direito, se força a cumprir primeiro o mais doloroso dever. «Fui num momento de desvario... A carta anonyma, a indicação tão precisa do numero da porta, a tua perturbação quanto te fallei... Perdi a cabeça: apoderou-se de mim o ciume; quiz saber e fui...»

—«Ah!» disse ella com um modo que Norberto lhe não conhecia ainda.

«Podeste fazer-me uma cousa semelhante!... Não, não foi a carta anonyma que te fez ir lá, não foi a denuncia, nem a minha perturbação, foi... Meu Deus!» e levantou as mãos n'um movimento desesperado.

«E eu que estava tão enternecida com a tua delicadeza, esta manhã, e que dizia commigo: calumniaram-no!...{141} O que te obrigou a ir lá,» continuou Valentina, approximando-se do marido, com o seu bello e nobre rosto congestionado pela indignação: «foi a entrevista que tiveste com Joanna. Veio aqui, fallou-te; o que te disse não sei... Ouvi as vossas vozes atravez da porta, não quiz porém, escutar o que diziam... Mas depois que partiu, sem procurar ver-me, comprehendi logo que algum facto extraordinario se passou entre vós... Adivinhei tudo immediatamente. Tudo vi... Foi ella que escreveu a carta anonyma, que me seguiu, que me denunciou, que te indicou a pista que devias seguir tambem para me surprehenderes!... Ah! a infame! A infame!... Tinham n'esse caso razão. Ha entre ti e ella uma intriga. Porque lhe consentiste que falasse assim de tua esposa—da mãe de teus filhos—é que ella é tua...» Deteve-se deante da palavra amante, que lhe abrazava o coração, e, n'um grito de legitima revolta da esposa muito ultrajada, protestou dolorosamente:

«Não, não foste lá por teres ciumes de mim, mas sim porque me atraiçoas...

«Querias apenas ter uma prova para te tornares livre, para só te dedicares a ella.