«O meu instincto de mulher não me enganou...{165} Mas», e o tom da sua voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem! Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam. Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente, quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna, inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não despresar e não o despresei...»
—«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde vive?»
«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma maneira á sua obra de piedade. Sem duvida{166} tinha continuado a manter uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no seu tristissimo estado physico!
«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as invenções dos livros.
«Mas que uma aventura como essa fosse possivel—que uma mulher da nossa sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a melhor parte da sua vida a um amante cahido—(e em que desastrosa queda!)—que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua ternura, por cartas, que o impediram de se matar,—que tivesse continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena—que tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus conselhos na sua tortura moral—que esse homem{167} culpavel d'um tão grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras—e que as relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez, durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de seculo 19, tão positivo, tão brutal—não, não teria nunca imaginado um similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.
—«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas. Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?... Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter{168} a liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes, emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver, a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceu sem testamento, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris, com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer, e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha morte...{169}
«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»
—«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira ainda estas outras phrases, que me disse tambem:
—«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».
—«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me acredite{170} piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro, durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!