Tudo no seu caracter protestava contra semilhante hypothese.
A baroneza de Node sabia-o melhor do que ninguem, tendo sido educada com ella, e encontrando-se, por circumstancias que lhe não eram muito lisongeiras, ao corrente dos segredos mais intimos da vida da sua prima. Mas quando uma mulher não é honesta—e Joanna não o era—não acredita nunca, sem reserva, na irreprehensivel virtude d'uma outra. Por isso é que o mais leve indicio{17} a punha no rasto do que a humanidade em linguagem de giria, chama um «embrulho» e vel-a hemos, apezar de dizer respeito á sua melhor amiga, desenvolver um talento de investigação tão completo como o d'um velho magistrado.
Eram uns nadas que tinham facil explicação: a recusa em sahirem juntas, com o pretexto de ter que fazer visitas, e depois esta entrada no grande armazem de novidades!
Bastava que a marqueza de Chalinhy não tivesse encontrado as pessôas que ia visitar, e que depois, passando pela rua de Rivoli, deante da fachada principal do grande armazem se tivesse lembrado, á ultima hora, de fazer qualquer compra. Era ainda uma insignificancia o seu fato escuro, o seu veu expesso e a sua passagem quasi furtiva atravez da multidão. E portanto, esta tão vaga, tão gratuita hypothese d'um mysterio culpavel, contrabalançava já, no espirito de Joanna, a longa experiencia que tinha a respeito da natureza de sua prima, por isso que a seguia de longe e sem se approximar d'ella.
Via-a caminhando sempre com aquelle passo rapido de quem vae direito a um fim, sem uma distracção, sem uma paragem, seguindo de galeria em galeria, e alcançar por fim uma porta affastada que dá para o angulo da rua Saint Honoré em frente da rua Croise des Petits Champs.
No momento em que a senhora de Chalinhy empurrava a enorme meia porta envidraçada, foi detida por um grupo de pessoas que pretendiam entrar. Teve que esperar um minuto, e voltou-se.{18} A espionadora, que se achava só a alguns metros de distancia, para não ser surprehendida em flagrante delicto da sua ignobil espionagem, não teve senão o tempo sufficiente para se voltar tambem e fingir que analysava uns objectos que se achavam ali proximo.
Valentina de Chalinhy tel-a-hia reconhecido, ou tendo-a visto não se julgaria reconhecida por sua prima?
Quando se voltou de novo, Joanna não viu mais as duas plumas pretas, que a orientavam n'esta caminhada atravez da multidão. A crescente suspeita continuava a aguilhoal-a tão fortemente, que correu para a porta afim de chegar o mais depressa possivel ao vestibulo, do qual se devisavam tres ruas ao mesmo tempo, e descobriu aquella que espionava.
A senhora de Chalinhy estava fallando com o cocheiro d'uma carruagem, que evidentemente ali a aguardava, e que retinha o seu cavallo impaciente no meio da rua Saint Honoré, ouvindo attentamente a direcção que lhe dava a sua cliente, com a mão collocada no portinhola aberta. Fez um gesto que designava haver comprehendido. As plumas negras perderam-se na carruagem, a pequenina mão fechou a porta e o cavallo partiu em direcção ao Louvre, tão rapidamente que a baroneza de Node não teve tempo de procurar outra carruagem que lhe permittisse seguir a pista em que o mais inexperado dos acasos a tinha lançado.
Chamou um cocheiro que passava, depois um segundo. Ao seu appello responderam o primeiro{19} com um insolente silencio e o ultimo com um ligeiro movimento de hombros. Ambos tinham já freguezes.