Esta historia d'um episodio romanesco, desenrolado no meio menos romanesco que existe, a alta sociedade parisiense, não ficaria completa se o chronista não transcrevesse aqui—sem commentarios, como vulgarmente se diz em estylo de gazeta—o final d'um dialogo que surprehendeu uma noite, no theatro, do fundo d'uma frisa, que habitualmente frequentava, menos para gosar o entrecho das peças que se representavam no palco (levava-se n'aquella noite um drama no qual se fazia a apologia em regra da união livre!) do que para admirar aquella ou aquellas que lhe era licito adivinhar no vasto salão.

Uma das interlocutoras era a senhora de Bonnivet, de que já fallámos e Saveuse, tambem nosso conhecido, ignorando um e outro que fallavam deante d'uma testemunha que conhecia o facto bem melhor do que elles proprios; commentavam:

—«Sabe V. Ex.ª qual é a novidade mais palpitante?» dizia Saveuse, «a ex-baroneza de Node desposou um americano extremamente rico, chamado Harris, de New-York, o irmão do primeiro marido da princeza d'Ardêa.»{184}

—«Era uma amiga» respondeu a senhora de Bonnivet. «Se fôr para os Estados Unidos teremos uma mulher divorciada menos a receber e a sermos recebidos por ella, conforme os dias. E que qualidade de pessoa é esse tal Harris?»

—«Um homem encantador, um bonito rapaz e muito apaixonado por ella», respondeu Saveuse.

—«Ainda bem!» repetiu a senhora de Bonivet, «tinha todo o direito a alguma felicidade desde que Chalinhy a deixou tão indignamente. Vamos tornar a ver este triste personagem. Visto que Joanna vae deixar Paris, Valentina com certeza lhe permitte que volte por cá. Depois de doze mezes passados no campo e d'um filho! Acho tudo isto d'um ridiculo espantoso, repugnante mesmo. Não haveria melhor maneira de fazer saber ao mundo que se era enganada e que tudo se perdoou?»

—«Não sabe então ainda o melhor», insistiu Saveuse, «que não usam já ou vão deixar de usar o appellido Chalinhy. Trabalham para restabelecer o nome de Nerestaing...»

—«É por causa do Castello. Isso é muito ridiculo,» replicou ella rindo.

Ha ainda cousas tão profundas como as aguas tranquillas e como as bellas almas silenciosas. É a ignorancia e a maledicencia das amigas e sobre tudo dos amigos.

FIM {185}
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