—Mas a sua ama sabia sem duvida o nome da pessoa que lhe escrevia?
—Não, as cartas não vinham assignadas; nunca mesmo lhe tinham dito o nome de minha mãe...
—É completamente um romance!...
—A minha boa ama pouco se inquietou com isso; tinha emprehendido um negociosinho de leite e de queijos que corria bem. Assim que fiz seis annos, mandou-me á escola; depois, um pouco mais tarde, a um collegio semi-interna, porque ella não queria nunca separar-se de mim mais de meio dia. Querida e boa ama! queria-me mais que uma mãe! visto que a minha me abandonára. Vivemos assim muito felizes durante alguns annos; mas, ha quatro annos, a boa Catharina caíu doente, e, apezar de todos os meus desvelos, morreu; tinha eu apenas quatorze annos, e comtudo a minha ama recommendou-me sua velha mãe, porque ella conhecia-me, sabia que eu tinha coragem, e a firme vontade de reconhecer pelo meu trabalho tudo o que tinham feito por mim. Durante os primeiros tempos, para vivermos, minha avó e eu, fomos obrigadas a trespassar o estabelecimento da minha ama. Eu procurava trabalho, mas não o podia obter, achavam-me muito nova para m’o confiarem, e quando minha avó o pedia, achavam-n’a muito velha. A final, a Providencia veiu em nosso auxilio, e eu pude ganhar a nossa vida. Mas, ha um anno, a minha pobre companheira ficou meia paralytica, já o senhor vê que tenho razão para trabalhar sem descanço e para velar constantemente pela pobre velha que não tem mais ninguem para a tractar.
—O que me acaba de dizer, não tem feito mais que augmentar o interesse que me inspirava, e perdôe, se torno ainda a falar n’isto, o desejo que sinto de lhe ser util. Pobre pequena, abandonada pelos paes, que vivem talvez na abastança e podem ter todos os gozos que a riqueza proporciona, emquanto que a menina...
—Asseguro-lhe que nunca penso em tal, não choro senão a minha ama, a minha unica mãe! e que me queria tanto! Não tenho resentimentos contra meus paes por me haverem deixado com ella. Nem minha mãe nem meu pae me teriam de certo tractado melhor.
—A menina tem muita philosophia, dou-lhe por isso os meus parabens: outras, no seu logar, forjariam mil chimeras.
—Oh! eu não! não penso senão no meu trabalho.
—E sempre me recusa o favor que lhe peço de me deixar tirar o seu retrato, vindo eu aqui?