—Menina, convenho que o mister de modelo não dá a qualquer mulher uma perfeita reputação de seriedade, posto que em todas as profissões se possa ter bom comportamente quando ha firme vontade de proceder bem. Mas tambem eu não vinha propôr-lhe que renunciasse ás suas occupações habituaes por esta nova profissão. Podia-lhe que me servisse de modelo sómente a mim, que me permittisse reproduzir as suas feições na tela, era um favor que eu solicitava e, para a menina, uma curta distracção aos seus trabalhos. E como lhe podia parecer pouco regular ir a minha casa servir de modelo, viria eu para aqui pintar, traria para cá a minha palheta e os meus pinceis; d’esta maneira, a menina não deixaria mesmo um instante a pessoa a quem prodigaliza todos os seus cuidados. Os modelos pagam-se muito caro, desculpe-me entremetter a questão de dinheiro em tudo isto; mas na vida não ha remedio senão attender a essa questão: ora, se eu occupasse um modelo durante umas dez sessões, dar-me-hia por muito feliz se elle se contentasse em receber cincoenta francos...
—Ih! Jesus! tanto dinheiro, só por servir de modelo!...
—Sim; e quanto mais bonito é o modelo, mais caro se faz pagar, isso comprehende-se. Por isso, para achar um como a menina, em primeiro logar seria muito difficil, depois teria de o pagar por um preço muito mais elevado, e as minhas posses não me permittem uma tão grande despeza. Já vê portanto que, satisfazendo ao meu pedido, era a mim que a menina obsequiava, era eu que lhe devia agradecimentos; mas isto desagrada-lhe, não pensemos mais em tal...
Lisa d’esta vez hesita para responder; a final murmura.
—Sinto não poder ser-lhe agradavel; parece-me entretanto que não deve ser difficil achar uma cara que valha bem a minha. Olhe, senhor, eu não conheço nada o mundo, mas creio que o céu me deu o segredo de ler no pensamento das outras pessoas: o senhor deseja ser-me util e tracta de me persuadir de que eu é que lhe prestaria serviço. Ah! isso é bem generoso da sua parte... confesse que adivinhei.
Casimiro está muito admirado da perspicacia da rapariga. Não pode deixar de sorrir, balbuciando:
—Confesso que me espanta, menina; a sua linguagem annuncia mais educação do que de ordinario se recebe na posição precaria em que a vejo. Não tem mais parentes senão essa pobre enferma, diz a menina; mas aquelles que perdeu occupavam então uma posição mais afortunada; perdão, sou talvez demasiadamente curioso?
—Oh! eu não tenho motivo para me rodear de mysterios! não conheci nunca meus paes; abandonaram-me muito cedo aos cuidados d’uma ama, depois esqueceram-se de mim completamente.
—É possivel! pobre creança! mas essa velhinha que ahi está?...
—Chamo-lhe avó, mas não me é nada; era mãe de minha ama. Essa chamava-se Catharina Vauger; queria-me muito, e o que mais receiava era o momento em que teria de separar-se de mim para me entregar á minha familia; ficou pois bem contente quando lhe enviaram uma forte quantia, dizendo-lhe: «Saia da sua aldeia, fique com a creança; em vez do nome que ella tem, chame-lhe Lisa unicamente; mas vá para Paris, para a morada que aqui se lhe indica, estabeça-se, e arranje uma lojita, que alguem terá o cuidado de a indemnisar das despezas que fizer com a menina.» A minha ama acabava de perder o marido. Partiu para Paris, trazendo comsigo a mãe, que alli está, n’aquella cama. Durante algum tempo recebeu pelo correio certas quantias para mim, depois, de repente isso acabou, não se ouviu mais falar em coisa alguma!...