—É que eu estava no cubiculo do porteiro, e depois occupo tão pouco espaço, é muito facil não me verem...
—Mas, quando alguem a vir uma vez é impossivel que não deseje tornar a vêl-a mais vezes...
Lisa não responde a isto, mas volta os olhos para o leito; Casimiro percebe que o momento é mal escolhido para lhe render finezas, e que, demais, não é para lhe fazer a côrte que elle quer travar conhecimento com a sua vizinha, mas no desejo de lhe ser util. É esse realmente o seu unico intuito? Eu por mim não respondo por isso; mas já é alguma coisa o ter boas intenções. O mancebo prosegue pois falando baixo e sentando-se n’uma cadeira que está perto d’elle:
—Perdão, minha vizinha, vou falar-lhe francamente, e espero que nas minhas palavras não verá nada que a possa offender. Soube pela pessoa que móra lá em cima, com que actividade a menina se entrega ao trabalho, para que sua avó não careça de coisa alguma; mas o trabalho d’uma mulher é quasi sempre mal retribuido, eu ter-me-hia por muito feliz se podesse offerecer-lhe o meio de ganhar mais, fatigando-se menos...
—Porque outro trabalho? eu não sei senão coser, bordar e fazer meia ou renda.
—Eu me explico: sou pintor; ensaiei alguns quadrosinhos de genero, mas ganha-se mais dinheiro a fazer retratos; n’isso ainda eu não sou muito forte, preciso estudar, trabalhar muito, emfim tenho necessidade sobretudo de pintar do natural, e para isso preciso de modelos. Notei que aquelle Rouflard tinha uma cabeça caracteristica, eis a razão por que fui esta manhã falar com elle. Propuz-lhe vir a minha casa servir-me de modelo; elle acceitou com alegria, e eu poderei occupal-o bastante tempo. Mas a minha sympathica vizinha, que tem uma cabeça encantadora, ah! perdôe-me este elogio, é como artista que lh’o faço, eu julgar-me-hia muito feliz se podesse reproduzir na tela as suas feições tão finas, tão suaves. Oh! estou certo de que havia de conseguir! trabalha-se tão bem quando se tem deante dos olhos um modelo que nos encanta... não lhe pedirei que venha servir-me de modelo senão quando não tiver nada urgente para fazer... acceitaria a sua hora... o seu tempo vago... e não julgaria nunca pagar bastante caro as sessões que houvesse por bem conceder-me; eis o motivo por que tomei a liberdade de abrir outra vez a sua porta e de me apresentar aqui de novo. Se a minha proposta lhe desagrada, espero, ao menos, que não verá n’isso da minha parte nenhuma intenção má.
A menina Lisa, que escutou Casimiro com muita attenção, responde-lhe logo:
—Não, senhor, não tomarei á má parte a sua proposta. Soube pelo Rouflard que trabalho para viver, para que nada falte á minha boa avó, e desejou ser-me util; não posso senão agradecer-lhe muito o interesse que se dignou tomar por mim. Mas não acceito a sua proposta; ser modelo de pintores não é a minha occupação, e tenho ouvido dizer... ao meu vizinho cá de cima, que as mulheres que consentiam em servir de modelos, não eram bem vistas na sociedade. Eu sou uma pobre rapariga, sem amparo, sem familia, não tenho pois por unica fortuna senão a minha reputação, e devo ter a peito conserval-a; tenho razão não é verdade?
Estas palavras tão simples, mas tão justas fazem viva impressão em Casimiro, que não está habituado a ouvir uma mulher falar tão discretamente. Tracta comtudo de convencer Lisa.