—Vejamos; oh! é bonita, é aprazivel, tem vida! O senhor é colorista, o que nem todos os pintores são, mesmo alguns que teem entretanto muito talento. Isto que lhe digo, não é para lhe fazer um elogio banal, o senhor tem o sentimente da côr... tracte bem este quadrosinho. Olhe, eu n’outro tempo teria pago isto por trezentos francos, e ainda havia de ganhar...
—Bom, visto que esta paizagem não lhe parece de todo má, vou acabal-a. Eu faria talvez melhor o quadro de genero que o retrato, não importa, tentarei as duas coisas. Até ámanhã, Rouflard.
—Sim, senhor, e não almoçarei senão depois da sessão, para me collocar em posição com mais dignidade.
Assim que o modelo se retira, Casimiro deixa a cabeça de Rouflard e deita-se á paizagem; trabalha com um ardor de que elle proprio se espanta, mas toma gosto pela sua obra, procura-lhe cuidadosamente os defeitos, aperfeiçôa-lhe muitas partes, e o tempo passa depressa quando a gente se entrega a um trabalho que agrada. Casimiro ouve dar quatro horas, e diz comsigo:
—Não é possivel que já seja tão tarde. Ah! Santo Deus! e eu que devia ir buscar Ambrosina ás tres horas, para ir passear com ella ao bosque! mais uma scena que terei de aturar! Porque deixei eu esta mulher dispôr assim do meu tempo? porque? Porque sou um preguiçoso, um cobarde, porque a menor occupação me mettia medo, e hoje tenho infinitamente mais prazer em trabalhar n’este quadro do que em ir passear ao bosque. Ah! é que penso n’essa menina Lisa que não procura nenhuma distracção, que trabalha constantemente n’um quarto onde não tem por companhia senão uma velha paralytica, e isto de ter assim vivido na inacção envergonha-me. Tenho ainda deante dos olhos a situação de Rouflard. Este homem, que foi tão festejado, tão amimado pelas mulheres, viveu á custa d’ellas e eu vejo onde isso conduz, o seu exemplo não será perdido para mim. A sr.ª Montémolly pode zangar-se quando quizer, mas de hoje em deante hei-de trabalhar; estou resolvido a isso, no entanto, como é preciso ser sempre delicado com as senhoras, vamos ter com ella, senão seria capaz de vir aqui para saber o que estou fazendo.
Casimiro dirige-se portanto a casa da formosa Ambrosina. Esta dama está de muito máu humor; acha-se vestida e prompta ha mais de uma hora, e não vê apparecer o amante. Passeava com impaciencia pela sala, olhava a cada instante para o relogio, chamava a creada e dizia-lhe que fosse perguntar que horas eram a qualquer parte, exclamando:
—Estou certa de que este relogio anda adeantado, deve regular mal; Adriana, vá saber que horas deram com exactidão.
Adriana vae informar-se ao quarto do porteiro, e volta dizendo:
—Minha senhora, o seu relogio não está adeantado, pelo contrario, anda atrazado seis minutos.
—Você é uma tola! exclama Ambrosina, rasgando as luvas com colera, de certo viu mal...