—Vae immediatamente perceber. Conversando algumas vezes commigo, porque eu gosto muito de conversar, sobretudo com as raparigas bonitas, é um resto da minha juventude... desinit in piscem... oh! eu tambem sabia latim! mas, com as mulheres, esquecia-me d’elle, ellas não gostam de linguas mortas!
—Voltemos a Lisa.
—Tem razão, eu poderia ter sido um bello advogado, porque trato os pormenores com muito cuidado. Ora, ia eu dizendo: conversando, a minha vizinha tem-me dito algumas vezes: «Ah! se eu podesse ajuntar algumas economias. Ha uma coisa que daria grande prazer a minha avó, e que eu estimaria muito poder-lhe offerecer, mas não o posso conseguir!» «O que é então, lhe disse eu, que a sua avó deseja tanto?» «É, me respondeu ella, uma colhér de prata; porque ella teve uma muito bonita n’outro tempo, em vida da minha ama, porém depois da sua morte, quando estive muito tempo sem achar trabalho, foi-nos preciso pouco a pouco vender o que possuiamos, e a colhér de prata levou esse destino. Hoje conseguimos viver, mas não posso ajuntar dinheiro para comprar outra; e ainda menos agora, que o medico receita algumas vezes remedios que são muito caros! Mas a saude está primeiro que tudo, vale mais que uma colhér de prata!...»
—Tem razão, Rouflard, essa menina, servindo-me de modelo, teria ganho em breve com que comprar o que deseja offerecer á avó.
—A não ser que o medico receite ainda algum remedio ruinoso; então, lá se ia embora todo o dinheiro! porque Lisa não regateia quando se tracta de dar allivio á pobre enferma. Mas é o mesmo, eu lhe falarei. A sessão ámanhã é á mesma hora?
—Mais cedo, ás dez horas em ponto.
—Á hora que quizer; eu sou livre como o besouro! Ah! permitte-me que veja o que o senhor fez?
—Sim, pode vêr.
—Espere, isto já não está mau, eu não sei pintar, mas tive a reputação de entender de quadros e, no tempo das minhas fortunas, comprei por vezes alguns quadrosinhos de genero... e ganhei sempre n’elles.
—Pois então, olhe para essa vistasinha de Bougival, que ainda não acabei...