—É que tem medo de se comprometter; tem ouvido dizer que as mulheres que servem de modelo aos pintores não gozam de boa reputação.
—De ordinario não são nenhumas vestaes! mas quem necessita de trabalhar para viver, não se deve prender com isso! A susceptibilidade de Lisa é exagerada! Esteja descançado, meu pintor, o senhor só tem boas intenções, só quer fazer bem á pequena, fazendo ao mesmo tempo um bonito estudo; indo pintar em casa d’ella deante da avó, tira todo o pretexto á maledicencia. Farei comprehender isso á minha boa vizinha, estou convencido de que a hei-de resolver a deixar-se retratar!
—Devéras! acha que vencerá a sua resistencia?
—Com toda a certeza! tenho vencido outras mais fortes. Triumphar das mulheres era a minha profissão! É verdade que empregava para isso meios de que não usarei com a menina Lisa; resta-me, porém, a minha eloquencia, e o desejo que tambem tenho de ser util áquella que nunca me recusou um boccado de pão. Será talvez a primeira vez que prestarei serviço a uma mulher, isso ha de fazer-me mudar.
Para primeira sessão, Casimiro não quer fatigar muito o seu modelo, e ao cabo de duas horas, conhecendo que Rouflard começa a sentir formigueiros nas pernas, diz-lhe:
—Basta por hoje.
—Devéras! põe-me em liberdade! Pois bem! gosto d’isso, porque principiava a sentir uma especie de caimbras nas pernas, falta de habito, já se vê mas hei-de-me costumar. Será preciso vir ámanhã outra vez?
—De certo; assusta-o isso, por ventura?
—Nada, pelo contrario, creio até que tomarei gosto pela coisa. Ganhar dinheiro assim não custa nada. Oh! é preciso que a nossa vizinha se preste tambem a isto, tanto mais que poderia assim dar grande prazer á avó, estou mesmo espantado de que ella não tenha pensado em tal.
—Como é isso? explique-se melhor, Rouflard; em que é que a menina Lisa daria grande prazer á sua pobre paralytica?