—Não... enganei-me... elle disse-me: «Vá, Rosa, encommende-as a seu gosto, e traga tambem pasteis de nata.»

—Caspité! és tractada como uma princeza!

—O senhor não faz nada sem me consultar. Quando os seus amigos me fazem zangar, digo-lhe a elle: «O seu amigo fulano deu-me hontem um beliscão em certo sitio...» Oh! o tal amigo fica pronto, é recebido de tal maneira que nunca mais volta.

—Oh! isso é bem armado, é um meio para te veres livre das pessoas que te aborrecem.

—É uma astucia velha que nunca erra o seu effeito. Mas imagina que me tinha vindo á idéa aquillo que me disseste o outro dia; uma d’estas tardes, depois de jantar, á sobremesa, digo ao patrão, que estava mais terno que de costume: «Senhor, se tem vontade de casar commigo, não se constranja, eu não desejo outra coisa.» A isto o patrão desata a rir, como um perdido! Fez-me zanga vel-o rir assim, e digo-lhe: «Então que motivo ha para rir do que lhe proponho?» Elle ri ainda mais, e depois responde-me: «Que diabo de idéa se te meteu na cabeça! e que tolice ires pensar no casamento.» «Mas, senhor, tornei eu, não acho que o casamento seja uma tolice.» «Pois olha que é, e bem grande; não, minha rica, não casarei comtigo, não farei similhante disparate! mas ainda mesmo que tivesse vontade de o fazer, não me seria isso possivel, pois que já sou casado.»

«Bem deves fazer idéa que fiquei embaçada ao ouvir isto «Como! pois o senhor é casado?» exclamei eu «e sua mulher está viva?» «Sim Rosa, minha mulher está viva, bem viva, e não creio que tenha vontade de morrer, porque é muito mais moça do que eu.» «E então porque não está o senhor com ella? para que vive sem mais nem mais como se fosse solteiro? É enganar a gente; isso dá ás raparigas solteiras certas idéas a seu respeito: póde a gente illudir-se com o senhor, pensando que é para bom fim, e depois era uma vez!... Isso é desagradavel...» O patrão fez então uma cara de mau humor, e respondeu-me:

«—Não tenho que lhe dar satisfações; se me separei de minha mulher, é porque provavelmente isso me conveiu, não é negocio da sua conta. De hoje para o futuro, ha de fazer favor de me não tornar mais a falar a tal respeito, porque isto desagrada-me.»

«Ora, bem deves suppôr que não foi preciso dizer-m’o duas vezes; vi que tinha ido longe de mais, e desde então não tenho falado mais em tal. Mas é o mesmo, desejava bem conhecer a mulher do sr. Loursain, e saber o motivo por que elle a deixou.

—Ora! tem muito que saber! é que lhe fez falcatrua, e esse senhor não gostou; ha homens tão ridiculos. Valha-me Deus! e eu sem ir buscar o remedio á botica! Adeus, Rosa, até mais ver.