—Sim, se lhe convem, é negocio feito, e pode logo passar por minha casa para receber o dinheiro.

—Se me convem! isso deixa-me encantado, enche-me de alegria, nunca teria ousado pedir tanto.

—Eu tinha pedido quinhentos francos, e estou certo de que, se o senhor quizesse esperar, acabariamos por achar quem os desse.

—Nada, não, não quero esperar, parece-me que fica muito bem pago, demais, visto que se acha valor aos meus quadros, pintarei outros.

—E fará muito bem. Trabalhe, sr. Casimiro, dê-se antes áquelle genero que a outro qualquer. Creio que lhe será isso muito mais rendoso que o retrato. O senhor é colorista, o que é um dom da natureza; conheço pintores de talento que não teem o menor sentimento da côr; teem uma figura para fazer, empregam a primeira coisa que acham no pincel; está perfeitamente desenhada, é espirituosa de attitude, de maneira, de idéas. Reina porém em tudo aquillo um tom pardo-escuro que tira ao quadro toda a graça que deveria ter. A esses, não peçam nunca luz, claridade, sol; é-lhes impossivel metterem d’isso nos seus quadros. Trabalhe, que nós o auxiliaremos.

Assim que o lojista se retira, Casimiro põe-se a pular e a dansar no quarto. Não é a idéa de que vae receber quatrocentos e cincoenta francos que o torna tão alegre; graças á generosidade da sua amante, tem tido muitas vezes quantias maiores á sua disposição; mas é o pensamento de que esse dinheiro é o fructo do seu trabalho, que elle soube ganhar por si mesmo, e que quando o receber, poderá mettel-o na algibeira sem córar.

—Nada faltaria agora á sua felicidade, se a sua vizinha do quinto andar consentisse em deixal-o fazer-lhe o retrato; não conseguiu ainda vencer a sua resistencia, e comtudo Rouflard disse-lhe no dia anterior:

—Está-me parecendo que a menina Lisa não tardará a deixar-se retratar, porque o medico que tracta da sua velha doente tem vindo vel-as estes dias; receitou uma nova beberagem, creio que é vinho quinado. Seria preciso que a boa da velha o tomasse todos os dias, e, com a breca! aquelle vinho é caro; as garrafas são muito pequenas despejam-se em dois goles. A pequena levanta-se ainda mais cedo, véla ainda até mais tarde para arranjar o vinho quinado; mas creio que lhe custa a chegar. Não faria ella cem vezes melhor em se deixar tomar por modelo? Ainda hontem lh’o disse. Suba lá o senhor, é agora a occasião, eu conheço as mulheres, tanto quanto a gente as pode conhecer; mas olhe, com ellas, o que é preciso é aproveitar a occasião.

Casimiro tracta logo de pôr em practica o conselho de Rouflard, e sobe de novo a casa da menina Lisa. Todas as vezes que se dirige alli, sente uma viva commoção e o seu coração bate mais apressado. Comtudo, tem dito muitas vezes a si proprio que não devia pensar em fazer a côrte a Lisa; que aquella pequena era honesta, e que da parte d’elle seria muito mal feito procurar seduzil-a, perturbar-lhe o socego e fazer-lhe deixar a verêda da honra, na qual, como diz o poeta: é difficil entrar uma vez que se esteja fóra.

Casimiro disse comsigo tudo isto e muitas outras coisas, o que não impede que, ao olharem para a linda cara d’aquella menina, os seus olhos não tenham uma expressão que não é de modo algum a da indifferença, e que a sua voz se não faça mais suave e mais insinuante.