Pela sua parte, Lisa sente-se inteiramente outra desde que travou conhecimento com o seu vizinho do terceiro andar. Tem-se mostrado para com ella tão delicado, e sobretudo tão respeitoso, que a rapariga pergunta a si mesma por que receia conceder-lhe o favor que elle solicita. Mas pergunta isto muitas vezes de mais; pensa em Casimiro todo o dia, não pode já reprimir-se de o fazer, e, apezar de toda a sua innocencia, uma donzella de dezoito annos adivinha perfeitamente que é muito perigoso estar sempre a pensar n’um rapaz, occupar-se constantemente d’elle; e, ainda que esse rapaz lhe não tenha dito uma unica palavra de amor, ainda que não a veja senão deante de sua avó, a donzella deve conservar-se acautelada contra o sentimento que se lhe introduz na alma, e sobretudo não se expôr a amar alguem que não pensa n’ella senão para lhe tirar o retrato.
É com receio de tomar demasiado gosto em se achar só com o seu joven vizinho, que Lisa recusa sempre deixar-se retratar por elle.
Mas no meio de tudo isto, chegou aquella receita de quina em vinho de Malaga. Os malditos medicos não se importam com as posses dos seus doentes; receitam o que é favoravel ao restabelecimento da saude, e tanto peior para o enfermo se não pode comprar o remedio; elles cumpriram a sua missão.
Lisa havia comprado uma garrafinha do vinho receitado; fizera-o beber á sua velha doente, a quem isso havia dado grandes melhoras. Mas essa garrafinha fôra bebida em sete dias, e ainda se não tinha comprado outra.
Este maldito vinho quinado preoccupava agora Lisa quasi tanto como Casimiro, e, como na vida todas as coisas têm o seu ricochete, ella não podia deixar de dizer de si para para si:
—Se eu me resolvesse a servir de modelo, bem depressa teria vinho quinado.
Rouflard não se enganara pois nas suas conjecturas, e, com effeito, ao vêr entrar Casimiro no seu aposente, Lisa experimenta um vivo sentimento de prazer que ella dissimula o melhor que pode, cumprimentando o seu vizinho com ar amavel e indicando-lhe uma cadeira, porque não pode largar a obra que está a acabar.
—Bons dias, minha vizinha, diz Casimiro; aqui tem um homem extremamente feliz.
—Realmente, estimo muito; o que lhe succedeu então para lhe causar tanta alegria?