O que me acconteceu? Ah! a menina não o comprehende talvez bem, porque é preciso ser artista para conhecer estas alegrias! Imagine um auctor que obtem o seu primeiro triumpho no theatro, o compositor que ouve cantar na rua a musica que fez publicar, emfim o pintor que vende o seu primeiro quadro, eis os homens mais felizes da terra! pois bem! eu sou d’esse numero... acabo de vender o meu primeiro quadro.
—O seu primeiro? como, pois ainda não tinha feito nenhum?
Esta reflexão tão natural de Lisa faz córar Casimiro, que comprehende que a sua joven vizinha deve perguntar lá de si para si em que tem elle empregado o seu tempo, para não ter feito, na sua edade, senão um quadro. O rapaz tracta de sair do embaraço, respondendo:
—Não menina, é verdade; comecei muito tarde a pintar a paizagem, eu preferi o retrato, agradava-me isso mais.
—E agora renuncia o retrato para se dar á paizagem?
—Oh! não! renunciar ao retrato! nunca! uma coisa não impede a outra! Mas eu estava tão contente esta manhã com a venda do meu quadro, que não pude resistir ao desejo de lhe dar parte do meu bom succedimento... e depois, quando se está em maré de felicidade, dizem que sempre nos chegam muitas; então, disse commigo: Vamos vêr a minha linda vizinha; quem sabe se ella hoje quererá tambem consentir em deixar-se retratar, se não abrandarei a sua resistencia!...
—Isso fazia-o então ainda muito feliz, se eu lhe deixasse fazer o meu retrato?
—Ah! seria o auge da minha felicidade? Empregaria todos os meus cuidados, todo o meu talento n’esse trabalho! e estou bem certo de que havia de ser bem succedido, que faria uma cabeça lindissima.
—Mas esse retrato... vendia-o depois?
—Vender o seu retrato! oh! nunca, minha vizinha, nunca! conserval-o-hia toda a minha vida... mas faria uma copia para lh’a offerecer, ou, se a menina o preferisse, dar-lhe-hia o original e ficaria eu só com a copia.