Casimiro está encantado com o seu dia, e assim que sae de casa do seu novo modelo, dirige-se á morada de Ambrosina, á qual quer participar a venda do seu quadro. Não está bem certo se ella compartilhará da sua alegria, mas estima muito que saiba que elle pelo seu trabalho pode emfim prescindir dos soccorros de outrem.

Emquanto ao que acaba de obter de Lisa, terá o cuidado de não dizer uma unica palavra á sua amante, da qual conhece os excessivos zelos; bem pelo contrario, espera que ella ignorará as suas relações com a sua joven vizinha; por isso ficou muito contente quando esta lhe propoz dar-lhe sessão ás oito horas da manhã; das oito ás dez não receia receber a visita de Ambrosina, que se levanta habitualmente muito tarde, e se por acaso ella viesse a sua casa antes que elle tivesse descido do quinto andar, sempre poderia dizer que tinha ido almoçar ao café.

Ao sair de casa, Casimiro encontra-se com Rouflard; o inquilino da agua-furtada nota o ar alegre e triumphante do joven pintor, e exclama:

—Aposto que se arranjou a coisa!

—É verdade, Rouflard, sim, a menina Lisa consente em me deixar fazer o estudo da sua cabeça, ah! estou muito contente!

—Eu bem sabia que haviamos de acabar por isso, mas isto de mulheres, é preciso sempre que se façam rogar um pouco.

—Ámanhã pela manhã ás oito horas subo a casa d’ella, com a palheta e os pinceis, e temos a primeira sessão...

—Quando qualquer mulher dá uma sessão, dá ao depois tantas quantas se querem... isso vae mesmo por si, é como o primeiro passo.

—Mas, Rouflard, isto fica aqui entre nós; quando eu estiver trabalhando com o senhor em minha casa, se vier aquella senhora, bem sabe, aquella morena a quem trato simplesmente por Ambrosina... e que já aqui tem vindo muitas vezes...

—Sim, sim, a senhora primeira, a sultana favorita, percebo!