—Ah! eu lhe vou contar o caso, é uma historia completa. Entre cá um instantinho.

—Não posso, vou á botica buscar um remedio para a senhora, que está incommodada, está com o seu ataque de nervos.

—Bem sabe que ella é propensa a esses ataques. Imagine que foi aquelle maroto, aquelle patife do quinto andar, o tal que se diz litterato...

—Ah! o sr. Denegrido.

—Sim, foi aquelle malvado que, para se vingar de eu no outro dia não lhe ter aberto a porta ás duas horas da manhã... A menina comprehende que um homem que mora n’uma agua-furtada de cento e sessenta francos, tenha o atrevimento de recolher para casa ás duas horas da manhã? E demais-a-mais nunca me deu a mais pequena gratificação! Pois bem! elle é que tinha o Pagnole fechado em casa, onde estou bem certa que nunca lhe dava de comer; por isso este pobre martyr emmagreceu tanto n’estes dois dias. Felizmente a creada do procurador do segundo andar ouviu-lhe os gemidos, e veiu dizer-me: «Parece-me que o seu gato está fechado em casa do litterato. Subi n’um pulo até ao quinto andar e reconheci a voz do meu querido bichano. Bati, teria arrombado a porta se elle não a abrisse. Elle gritava-me: «Não estou ainda levantado.»—«Pois levante-se,» respondi eu.—«Não estou vestido.»—Que me importa a mim isso?! pensa que tenho vontade de o retratar?! O homem afinal abriu a porta; o gato veiu logo lançar-se-me nos braços. Affianço-lhe que o tal Denegrido ha de ser despedido no fim do seu arrendamento; demais, elle não paga, não tinhamos tenção de o conservar.

—Até logo, sr.ª Bedou.

—Quando voltar lhe direi o que o escrevinhador me disse para se desculpar de ter fechado o Pagnole. Imagine...

—Sim, sim, quando voltar.

A menina Adriana acha-se emfim na rua. Quando passa por deante da tenda, um dos caixeiros, que parecia estar a espreital-a, toma-lhe o passo, dizendo-lhe:

—Aonde é que vae com tanta pressa? parece que corre n’um velocipede.