—É preciso que eu olhe para a menina com attenção para reproduzir as suas feições, isso não deve intinmidar-a; não veja em mim senão um artista, ou antes um operario que faz o seu officio, e isso não a perturbará.

—Ah! mas o senhor não é um operario!

—Ora adeus, minha vizinha, todos nós o somos, cada um no seu genero; pois quem trabalha para viver não é operario? Ha porém, dirá a menina, profissões que exigem mais estudos, mais intelligencia que outras; mas esteja persuadida de que o poeta ou o escriptor que trabalha com o seu pensamento, que tira do cerebro os seus materiaes, tem ás vezes muito mais fadiga, muito maior lida em fazer a sua obra do que o marceneiro em aplainar as suas tábuas. Olhe para mim por um pouco.

Lisa ergue os olhos, e d’esta vez torna a baixal-os menos depressa encontrando os de Casimiro. Este gosta de fazer conversar o seu modelo, o que não receiam fazer os pintores de grande talento, porque apanham melhor a expressão da nossa physionomia emquanto falamos, do que o fazem aquelles que nos prohibem de nos mexermos, o que nos dá então um ar aborrecido, ou contrafeito, ou affectado; eu poderia mesmo dizer apalermado.

Lisa estima bastante poder conversar; em vida da sua ama, quando esta tinha uma venda de leite e fazia muito bom negocio, levou tres vezes a pequena ao theatro, e esta lembra-se sempre d’isso, porque gostou muito do espectaculo. Este divertimento e a leitura são os unicos que ella deseja; a dansa, os passeios, as festas campestres teem para ella poucos attractivos. Antes de cair doente, a boa da avó queria que a sua Lisa procurasse estas distracções; mas, em vez de ir vêr esses bailes que ha no termo de Paris com o falso nome de campestres, Lisa levava a sua companheira para um passeio pouco frequentado, para uma vereda solitaria, coberta de sombra, e alli, sentando-se na relva, lia um romance que tinha alugado economizando alguns soldos na despeza do sustento. Lia em voz alta; a velha adormecia, mas Lisa continuava a lêr, e ambas estavam contentes.

—Se a minha vizinha gosta de lêr, diz Casimiro, posso emprestar-lhe alguns livros; tenho todos os romances de Alexandre Dumas, e estou bem certo de que lhe hão de agradar muito.

—Ah! agradeço a sua bondade; mas, desde que a avó caíu doente, não tenho já tempo de lêr, vale mais trabalhar.

—É mister todavia ter alguns instantes de repouso.

—O trabalho que eu faço não cansa.

Na primeira sessão, Casimiro não quer demorar muito tempo o seu modelo; levanta-se pois, dizendo: