—A mim! ora essa! não foi olhando para mim que o senhor fez essa linda paizagem que vendeu.
—Não, mas foi vendo-a trabalhar sem descanço, n’este modesto aposento, sabendo que achava meio de prover ás necessidades de sua velha avô paralytica, que eu tive vergonha da minha existencia, da minha preguiça, que comprehendi que havia de lamentar um dia o ter empregado tão mal a minha mocidade e emfim que tomei a resolução de mudar de vida. Bem vê pois que, se eu obtiver um dia talento, é á menina que o deverei.
Lisa não responde nada, porque está demasiadamente commovida, mas o seu olhar fita-se em Casimiro, e tem uma expressão tão terna, tão meiga, que d’esta vez é o pintor que deixa de trabalhar.
Estes colloquios confidenciaes renovam-se todos os dias e tornam mais intimas as relações que existem entre o pintor e o seu modelo. Pouco a pouco, uma affectuosa confiança substitue a fria polidez. Conversam mais, fazem as sessões maiores, separam-se a custo, porque teem sempre alguma coisa para se dizerem; acham-se tão bem juntos, que Lisa impacienta-se e abre a porta quando Casimiro tarda alguns minutos. E, comtudo, nunca uma palavra de amor foi pronunciada n’estas sessões de todas as manhãs; mas ha coisas que a gente não tem precisão de dizer para se fazer comprehender, e o amor é uma d’essas coisas.
O retrato adeantava-se; mas, como Casimiro queria fazer durar muito as sessões, achava sempre alguma coisa para pintar de novo, para retocar. Lisa não se queixava d’isso, pelo contrario, quando o seu pintor dizia: «Basta por hoje,» acontecia-lhe ás vezes exclamar:
—Já! ah! parece-me que não trabalhámos muito esta manhã!
Então Casimiro sorria-se, e continuavam a conversar. A rapariga examinára o retrato, e pulára de prazer vendo-se tão bonita. Tinha exclamado:
—Ah! o senhor lisonjeia-me; eu não sou assim!...
Não se atrevera a dizer: «Tão bonita!» Mas as mulheres param muitas vezes no momento de dizerem o verdadeiro fundo do seu pensamento.