—Oh! menina, é indigno isso que está dizendo! Minha senhora, acaso vae tambem pensar que tenho eu a sua colhér?

—Menina, o que quer que eu lhe diga... quando os factos falam... é preciso render-se a gente á evidencia; a menina mesma concorda em que tinha aqui uma colhér de prata...

—Sim, minha senhora, sim convenho n’isso; repito-lhe que me servi d’ella esta noite para dar o calmante á menina...

—Pois bem! vossemecê ficou sósinha aqui esta noite... e esta manhã esse objecto desappareceu. Que outra pessoa, por consequencia, pode tel-a tirado?

—Oh! minha senhora, reviste-me, faça favor... verá que o não tenho...

—É inutil, quando alguem tira uma coisa não a esconde em si.

—Oh! é o mesmo, exclama Adriana, vou revistal-a eu; porque, emfim, não quero que se perca prata nenhuma na casa onde eu estou a servir.

A creada corre ás algibeiras de Lisa, e vira-as inteiramente; depois apalpa a rapariga de alto a baixo, e termina a sua inspecção exclamando:

—Nada! oh! affianço que não tem a colhér em si.

—Então, minha senhora, bem vê, diz Lisa.