—Ora! demais, exclama a sr.ª Proh, que desceu do terceiro andar para se metter na conversação; não se dirá que em minha casa poude alguem entrar até junto da enfermeira; depois, ha em tudo isto alguma coisa que deve fazer condemnar Lisa, é o amor, a paixão da avó pelas colhéres de prata, a sua menina comprou-lhe uma ultimamente, que ella se apressou a mostrar-me. E’ provavel que a velha tenha querido ter outras...
—A senhora está a calumniar pessoas honradas, não o consentirei!...
—Eu não calumnio, digo o que é e custa pouco a dizer: Ella está innocente! está innocente! então onde estão as nossas colhéres?
Uma senhora que mora por cima de Ambrosina, que tem cincoenta annos, o ar muito distincto, o aspecto frio, severo mesmo, e não fala a ninguem no predio, mas que, attrahida pelo barulho que se faz na escada, ouviu tudo o que se acaba de dizer no patamar do primeiro andar, desce tambem ahi por sua vez, e diz a Casimiro:
—O senhor não crê a menina Lisa culpada, nem eu tão pouco; mas ha em tudo isto um mysterio que é preciso descobrir, estou persuadida de que o hei de conseguir eu...
—Ah! minha senhora! restituirá a vida a essa pobre Lisa, porque ella morrerá de desgosto se a sua innocencia não fôr por todos reconhecida... fale, o que tenciona fazer?...
—Senhor, para isso é preciso que essa menina consinta em vir passar esta noite em minha casa, dir-lhe-hei que minha irmã, que vive commigo, está doente, e que é preciso que alguem a fique velando...
—Ah! minha senhora, Lisa não quererá; depois do que lhe aconteceu duas vezes, como quer a senhora que ella consinta ainda em velar alguem?
—Consentirá se o senhor se encarregar de lhe pedir, se lhe disser que é para ficar certa da sua innocencia que lhe pede este ultimo sacrificio d’uma noite...