XVII
O que era

Casimiro pára deante de Ambrosina, dizendo-lhe.

—E a senhora tambem acredita que aquella menina lhe tenha tirado essa colhér de prata que lhe falta?

Ambrosina tracta de dominar a impressão que lhe causa a vista de Casimiro, com quem ella se não tinha encontrado desde a altercação que dera em resultado o rompimento das suas relações, e responde-lhe com um tom levemente ironico:

—Na verdade, sinto muito o que acontece, sobretudo por sua causa; lamento que seja a sua protegida aquella a quem o senhor sacrificou uma antiga amizade, que se tenha tornado culpada d’uma acção tão reprehensivel, mas é forçoso reconhecer o que é, o que não se pode negar...

—Mas, minha senhora, essa menina tem sido sempre um modelo de honestidade, de bom comportamento. A senhora sabe como ella trabalha para que a sua velha paralytica não sinta falta de coisa alguma...

—Tudo o que quizer, senhor, mas então ache-me a colhér...

—Podia ter entrado alguem em sua casa emquanto Lisa dormia, porque ella dormiu.

—Quem queria o senhor que entrasse... ladrões? mas o porteiro havia de saber se entraram alguns no predio, e o senhor não suppõe, presumo eu, que seja alguem da minha casa que tenha entrado no quarto onde a menina Lisa estava velando a Adelinasinha... Ella dormiu, diz o senhor, dil-o ella, mal quem o prova?