Lisa, que continua a dormir, não obstante estar com os olhos muito abertos, levanta-se da cadeira, dizendo:
—Sim, avósinha, sim, vou fechar a sua colhér de prata... que a avósinha estima tanto, e que tem tanto medo que nos furtem. Oh! mas eu a esconderei bem, não tenha cuidado, sempre no mesmo sitio, a avósinha bem sabe, debaixo do meu colchão de crina...
E Lisa vae immediatamente buscar a colhér que está em cima da mesa, e, indo pôr-se de joelhos deante da cama, mette-a entre o leito e o colchão; depois ergue-se, dizendo:
—Oh! está bem escondida, ninguem dará com ella... não tenha medo agora, avósinha...
Lisa volta para o seu logar, torna a sentar-se e fecha os olhos. A’s tres pessoas que espreitam pela vidraça, não lhes escapou nada do que se passou. Casimiro está transportado de alegria.
—Justificada! exclama elle, está justificada, porque as outras colhéres devem estar escondidas no mesmo sitio, não é verdade, minha senhora?
—Certamente! responde a sr.ª Durmont, esta rapariga é somnambula, eis o que eu havia adivinhado; eis o que eu tinha a peito fazer-lhes ver: agora, venham, podemos entrar no quarto, que ella não acordará...
—Somnambula! diz Ambrosina, que custa a cair em si do seu espanto. Ah! estou com muita curiosidade de a examinar de perto.
Aberta a porta de vidraça, entram todos tres no quarto de dormir. Lisa está na poltrona, com a cabeça inclinada para traz, e, na agitação do seu somno, afastou completamente o lencinho que lhe cobria o pescoço; pode-se então ver uma pequena medalha presa a uma fita preta, que ella traz sempre escondida debaixo do vestido.
A sr.ª Montémolly, que duvida ainda do somno de Lisa, approxima-se d’ella e examina-a com muita attenção.