—Pois é verdade, ella cá está!
—Então, professor, é mentira o que eu lhe dizia? Que diz a isto?
—Direi o que isso prova: que as nossas mulheres, filhas ou creadas que teem a seu cargo o arranjo da casa, não se dão ao trabalho de levantar os colchões quando fazem as camas!...
—Ora, senhor! exclama a sr.ª Proh, as mulheres teem já tantas coisas que levantar!
Ambrosina acompanha a filha até á agua-furtada; acham a avó acordada, contam-lhe os acontecimentos da noite, e a boa da velha, á força de olhar para Ambrosina, de a examinar bem, exclama:
—Sim... é verdade... reconheço-a agora... foi a senhora que nos trouxe a pequena... e que voltou a vel-a muitas vezer a Pierrefitte.
Depois Lisa mostra a carta que a sua ama tinha recebido; Ambrosina reconhece a letra de sua tia, e, se ella tivesse ainda alguma duvida sobre a identidade de sua filha, esta ultima prova não podia deixar-lhe mais nenhuma. Pela sua parte, mostra tambem a Lisa a carta de sua tia que lhe annunciava a morte da filha, porque tem a peito provar a Lisa que nunca tivera a idéa de a abandonar.
No dia immediato a esta noite tão fecunda em acontecimentos, faz-se na casa uma grande mudança: como Florentina viera buscar a filha, Ambrosina dá a Lisa o lindo quarto azul onde estivera a pequenita; depois arranja-se um outro quarto para a velha paralytica, que é trazida da sua agua-furtada para o primeiro andar, e que fica muito satisfeita ao saber que, apezar da sua mudança de fortuna, a Lisinha, que ella considera como filha, não se quer separar d’ella.
Casimiro ficou muito espantado, e assim a modo triste, quando se descobriu o segredo do nascimento de Lisa; teve mesmo por um momento o coração opprimido, como quem receia perder a pessoa que ama. Mas em breve adquire a prova de que o amor maternal extinguiu em Ambrosina qualquer outro sentimento, e que para esta mulher, tão feliz por ter achado sua filha, o passado não é mais do que um sonho, de que ella nem mesmo quer conservar a recordação. O joven pintor pode pois agora ver Lisa em casa de sua mãe. Mas durante os primeiros mezes que se seguem a este acontecimento, põe n’isso certa discreção, porque comprehende que ha situações que precisam de tempo para se consolidarem. Demais, Casimiro trabalha agora muito; o bom acolhimento que os seus quadros obteem, redobra o seu enthusiasmo, o seu amor pela pintura; em todas as artes, não é preciso muitas vezes mais que um bom exito para tirar um homem da mediocridade, para fazer d’elle uma celebridade, e por falta d’esse bom exito quantos talentos não teem morrido, sem terem desenfardado as suas mercadorias, como diz Montaigne.
Seis mezes depois d’estes acontecimentos, morre o sr. Loursain, em consequencia d’uma indigestão. Ambrosina sabe que está viuva, e, o que a surprehende muito mais, é que recebe uma carta d’um tabellião, que lhe participa que seu marido lhe deixou toda a sua fortuna, que anda por perto de trezentos mil francos. A menina Rosa, a creada tão janota e presumida, que seu amo tratava por tu, teve apenas em legado uma quantia de seiscentos francos, e o retrato do corpo inteiro do sr. Loursain. A creadinha, na força da sua colera, manda accrescentar no retrato um par de chifres e vende-o para servir de taboleta a um salsicheiro, que manda escrever por baixo: O boi da moda.