—Sim, mas quando eu fôr somnambulo hei de esconder todos os covilhetes de doce.

—Nada ganharias com isso, Affonso, pois que, em acordando, ninguem se lembra mais do que fez no estado de somnambulismo.

—Ah! pois não! então eu sou tolo! não serei somnambulo senão d’um olho!...

O sr. Proh bate com a mão na testa, exclamando:

—Este rapazinho ha de ir longe!

Graças ao trabalho que Casimiro lhe arranja Rouflard pode viver; poderia mesmo ter um quarto um pouco melhor, mas elle não quer mudar-se, dizendo que está habituado a morar alli, assim como a chamar ao porteiro seu creado; como o pintor já não mora no predio, Chausson deixa algumas vezes o seu antigo amo dormir na rua, porque este continúa a embriagar-se do mesmo modo. Em vão Casimiro lhe diz:

—É preciso corrigir-se d’esse ruim defeito, Rouflard; quando um homem quer devéras, de tudo se emenda! veja o exemplo em mim, eu era um preguiçoso, hoje gosto do trabalho.

—Isso é muito bonito, responde Rouflard, mas eu preciso de consolações; morava por baixo de mim um anjo, o senhor levou-o para longe! quando estou bebedo, affigura-se-me que o tenho ainda ao pé de mim, e é por isso que bebo!

fim da «A menina Lisa»