Passam ainda cinco minutos quando finalmente tocam a campainha com violencia; o rapaz corre a abrir a porta, mas é a sr.ª Montémolly, que entra com um ar decidido, furibundo, toda esbaforida e a escorrer em suor, porque subiu a escada a toda a pressa. Os leitores já sabem pela menina Adriana que sua ama, que quer passar por ter trinta e quatro annos, deve andar perto dos trinta e oito. Para completar o retrato, accrescentaremos que é uma mulher alta e bonita, que tem uma certa graça nas maneiras, uma certa perfeição nas fórmas, e que veste muito bem. É uma mulher trigueira, cujos olhos bem rasgados nem sempre são meigos, e cuja bocca, um pouco mettida para dentro, é muitas vezes desdenhosa e altiva; mas, quando ella quer ser amavel, é uma bonita mulher, um verdadeiro typo andaluz; para ser uma perfeita hespanhola, não lhe falta senão o pente muito alto debaixo do véu preto e umas castanholas nas mãos.
Esta senhora entra sem se demorar um instante, sem mesmo dizer uma palavra áquelle que lhe abre a porta; atravessa immediatamente a saleta de entrada, a sala, vae passar revista ao quarto da cama, esquadrinha todos os cantos á casa para vêr se está por alli alguem escondido; só depois de ter acabado esta inspecção é que volta á sala, e atira comsigo para cima d’uma poltrona exclamando:
—Ah! não era a mim que o senhor esperava, não é verdade?
—De certo! responde Casimiro sentando-se com o ar d’uma pessoa que acaba de levar com uma telha na cabeça; e é devéras um acaso o ter-me encontrado aqui. Já teria sahido para ir a casa de Miflaud, se elle me não tivesse escripto novamente dizendo-me que viria elle mesmo cá, que antes queria isso, porque em sua casa, como mora com a mãe, receava que ella suspeitasse do duello e então...
—Sr. Casimiro, quando faz tenção de acabar com essas mentirolas? Pensa porventura que acredito todas essas patranhas que me conta, e mesmo muito mal.
—Mas, minha senhora, não ha aqui patranha nenhuma. Que espanto é que um meu amigo tenha uma pendencia de honra? é uma coisa que acontece todos os dias. Elle pede-me que seja seu padrinho, e isto não se recusa...
—Em primeiro logar, ha muito tempo que o senhor me não falava no seu amigo Miflaud; parece-me que tinha deixado de andar com elle.
—Deixado... porque, estando sempre com a senhora, não posso andar com elle, mas não estavamos desavindos.
—O senhor devia passar o serão commigo.
—Isso nada tem de notavel, porque os passo todos!