—Com ella não será a coisa tão divertida!
—Tu é que tens a culpa, imbecil! responde Casimiro; se tivesses entendido os meus signaes, ella teria acreditado no duello, e deixava-me sair comtigo.
—Mas... se eu não sou forte em mimica!
Ambrosina volta calçando as luvas e parte com os dois rapazes. Casimiro faz quanto pode para occultar o seu mau humor; a sua amante olha para elle, com ar meio ironico e meio de ameaça.
IV
Um almoço em intimidade
No dia seguinte, depois do meio dia, Casimiro está em casa da amante, sentado a uma mesa sobre a qual se acha servido um magnifico almoço, defronte da sr.ª Montémolly, com quem elle fez as pazes n’essa mesma noite do baile Mabille, que se passou sem nova scena de ciumes. Miflaud, como não podia deixar de entregar-se á sua paixão pela dansa, teve de largar o braço de Ambrosina, a qual, naturalmente, tomou o de Casimiro; mas este, que não tinha a menor propensão para o cancan, ainda o mais burguez, contentou-se em ver Miflaud fazer prodigios de destreza e de audacia, executando a tulipa tempestuosa e outras dansas em voga nas quadrilhas excentricas; depois, enternecido emfim pelos suspiros que dá Ambrosina apertando-lhe o braço, pelos olhares ardentes que succederam aos que ella a principio lhe lançava, por estas palavras: «Então já me não amas?» que são pronunciadas com uma voz quasi supplicante, elle responde meigamente á pressão do braço, olha para ella sorrindo, e está feita a paz. Não é talvez uma paz bem solida, bem duravel, mas emfim é uma reconciliação.
A sr.ª Montémolly está com um lindo trajo caseiro de manhã, que dá muito realce aos seus contornos bem pronunciados; na cabeça não tem mais enfeites que os seus lindos cabellos, muito negros e espessos, que ella propria sabe arranjar de maneira que harmonisem com a sua physionomia, talento que nem sempre possuem os artistas cabelleireiros, que nos penteiam a seu modo, sem se importarem que o penteado fique bem ou mal á nossa cara.
Ambrosina é ainda uma mulher muito seductora e que muitos homens se julgariam felizes de conquistar; mas, n’este momento é ella que parece procurar agradar ao seu amante, prendel-o em novas cadeias, emfim captival-o ainda mais. Estão trocados os papeis: é a senhora quem faz a côrte, e o homem quem a recebe.