—Não vá fazer como hontem?

—Não tenha receio; vou tomar um pouco de ar e jogar talvez uma partida de bilhar no café da Porta-São-Martinho...

—Vá, meu extravagante, dê-me um beijo.

—Até logo.


V
O lindo Rouflard

Saíndo de casa da sr.ª Montémolly, Casimiro vae passear algum tempo no boulevard; sente o desejo de tomar ar, o que é sempre optimo para a digestão, depois d’um jantar abundante. Casimiro accende um charuto, essa necessidade facticia dos ociosos.

De repente, mexendo n’uma das algibeiras do lado, sente debaixo dos dedos alguma coisa que tem a fórma d’um cartucho de dinheiro. Era effectivamente um d’estes lindos estojos de marroquim, forrados de cobre, e feitos de proposito para guardar ouro. O nosso rapaz tira o cartucho da algibeira, desvia-se para um lado e conta o dinheiro que ha no estojo; acha vinte e cinco luizes. Torna a fechar o estojo, e mette-o outra vez na algibeira, dizendo de si para si:

—Quinhentos francos! ella introduziu-me isto no bolso do paletot; terá dito comsigo: «Elle não deve já ter muito dinheiro.» e não se enganou, restavam-me apenas vinte francos; mas receber sempre dinheiro d’esta mulher. Ah! é humilhante, é vergonhoso! ainda se ella me mettesse na algibeira quatro ou cinco mil francos de uma vez, ao menos teria eu para muito tempo sem andar á divina; porém ella terá todo o cuidado em me não dar nunca similhante quantis, quer ter-me sempre debaixo da sua dependencia. E não quer que eu trabalhe; não, teria um desgosto se eu podesse passar sem ella. E diz que me ama, sim, por si, mas não por mim. Infelizmente, nas mulheres, esta maneira de amar é a mais vulgar. Ah! as mulheres de hoje não são como as de Sparta, que diziam ao marido que partia para a guerra: «Volta vencedor ou faze-te matar.» Dir-me-hão talvez que é tambem uma singular maneira de amar qualquer pessoa o dar-lhe de conselho que se faça matar! Ne quid nimis! o excesso em tudo é um defeito. Vamos jogar o bilhar, é a estas horas que Miflaud costuma estar no café do theatro. Ah! diabo! agora me lembro, é hoje o meu dia de lição á menina Proh; irei? Mas eu não estou em estado de dar uma lição de desenho. Ambrosina fez-me beber tantas coisas! Devo mesmo exhalar um forte cheiro a vinho e a licor; não posso apresentar-me n’este estado deante d’uma familia respeitavel, não, seria indecoroso. Ó delicias de Capua! aqui tendes os vossos resultados! Ambrosina faz bem tudo o que é necessario para me tirar o gosto pelo trabalho. Ora adeus! tanto peior! toca a jogar o bilhar.

Quando a gente adquiriu uma vez o habito de não pensar senão, em divertir-se, é muito difficil vencel-o e ter força bastante para rejeitar o prazer que se apresenta e preferir-lhe o estudo ou trabalho. É o que acontece n’este momento a Casimiro; este rapaz não é falto de bons sentimentos, do que deu provas encarregando-se de dar lições de desenho á filha da sua vizinha: deseja ganhar dinheiro, já pelo seu talento, já exercendo um emprego em qualquer secretaría; mas lá está a amante para lhe tolher o passo; como é rica, quer monopolizar o amante, quer o que pobre moço não viva senão para ella e por ella! Quando uma mulher, que é ainda muito encantadora, quer subjugar um homem, emprega n’isso todos os seus meios, e para agradar tem ella muitos.