—Creio que é tempo de irmos para casa. Diga ao creado que nos vá buscar uma carruagem.

Nunca faltam carruagens n’este rico e elegante bairro, onde se faz da noite dia, de modo que ás duas horas da madrugada está ás vezes mais animado, mais cheio de vida que ao meio dia. Casimiro leva Ambrosina a casa, depois faz-se conduzir ao seu domicilio, na rua de Paradis-Poissonniére, dizendo comsigo:

Aqui está um dia bem empregado; foi um dia cheio.

Mas, ao dizer isto, o rapaz tambem estava bem cheio, porque se não tinha poupado mais á ceia do que ao almoço; o Champagne tinha representado um grande papel em todo este dia; elle não estava bebedo, porque um homem bem educado nunca se embebeda, mas estava n’esse estado de ebriedade que é o meio termo entre a embriaguez e o perfeito juizo.

—Parou emfim a carruagem. Casimiro, que se acha deante da sua porta, paga ao cocheiro, e vae puxar o botão de metal que deve fazer tocar a campaínha e acordar o porteiro, dizendo comsigo:

—Comtanto que o meu estimavel porteiro não tenha o somno muito pezado, e que saiba que não recolhi ainda.

Na occasião de tocar a campainha, Casimiro vê um vulto estendido deante da porta; abaixa-se para ver melhor, estende cautelosamente o pé, o vulto mexe-se; é um homem que está alli deitado.

Casimiro faz um movimento para a rectaguarda, na idéa de que é talvez um ladrão que finge estar a dormir, e elle não tem sequer uma bengala para se defender; mas o vulto não se mexe mais, e o rapaz decide-se a puxar outra vez o botão de metal.

O porteiro não abre ainda, e Casimiro, impacientado, empurra com o pé o individuo que alli está estendido tomando-lhe a passagem; ouve-se um grunhido surdo e levanta-se um pouco uma cabeça, que tinha a cara voltada contra a porta, resmungando:

—Então! olá! o que é que temos?