—Desde o momento em que o bebedo das aguas-furtadas está mettido em tudo isto, diz Celeste, já o senhor vê que caso se pode fazer do que acaba de dizer seu filho.

—Sim, senhora, esse bebedo, esse tal Rouflard, porque é assim que elle se chama, creio eu, esse maroto, preguiçoso, borrachão que devia ser expulso do predio. Chausson, o porteiro, tinha-m’o recommendado, pedindo-me que lhe désse alguma coisa que fazer, e dizendo-me que era um homem bem educado, que tivera desastres na sua vida. Eu accedi a occupal-o, ainda que desconfio sempre d’essas pessoas que tiveram desastres. Eu tinha justamente precisão de rhum da Jamaica, a senhora não gosta, prefere o licor de herva doce, mas gosto eu. Era um dia em que a senhora jantava fora com os pequenos. Dou dinheiro ao tal Rouflard, ordenando-lhe que fosse aos Americanos, que é onde ha certeza de o achar bom. O homem sae d’aqui perto das quatro horas da tarde. Era preciso quando muito uma hora para fazer o recado, e ás seis horas ainda não tinha voltado. Vou-me queixar ao porteiro, receioso de que tivesse acontecido algum desastre ao seu protegido. Dão sete horas, dão oito, finalmente, ás dez horas, vejo chegar o nosso homem, borracho, bebedo, mal podendo suster-se nas pernas, e que me apresenta uma garrafa quasi despejada, dizendo com ar chocarreiro: «Aqui tem a sua garrafa de rhum... entornou-se um pouco pelo caminho... é que provavelmente não trazia a rolha bem apertada.» «Como! lhe dige eu, atreve-se a affirmar que a garrafa se entornou! porém ella devia estar perfeitamente lacrada! para que teve a confiança de a abrir?... foi para beber o meu rhum... você é um maroto!... um patife!...» Em vez de se desculpar, de me pedir perdão, o tal Rouflard diz-me a modo de injuria: «Se não está contente, vou beber o resto!...» Effectivamente, deixei-lhe o resto; mas dei os meus agradecimentos ao porteiro, e, repito, um tal bebedo não devia continuar a viver no predio.

—Ora adeus! o Rouflard não tem medo de vossemecê, papá Chimpanzé, não, Chimpanzé não... papá Castor...

—Então o menino conversa com esse homem? Fonfonso, prohibo-o que lhe fale, não quero que aprenda máus costumes.

—Não sou eu que lhe falo, elle é que me diz sempre tolices quando passa.

—Não lhe responda, encerre-se no seu foro intimo.

—Não entendo, papá.

—Quero dizer que não dê attenção ao que lhe diz esse bebedo.

—Ora! mas diverte-me, faz-me rir, hontem pela manhã disse-me: Porque é que teu pae não põe o seu nome por cima da porta? é uma coisa que sempre se faz para os artistas.

—O que, Fonfonso! esse homem tem a petulancia de te tractar por tu! Que insolencia!