—Sim, n’esta mesma escada, não falo da que vem ter a esta agua-furtada, mas cá por baixo, no quinto andar, n’um quarto muito modesto, mas que parece um palacio em comparação d’este chiqueiro, mora uma rapariga que pode ter dezoito annos, creio, e uma velha a quem ella chama sua avó. A rapariga chama-se Lisa, a menina Lisa, como toda a gente a conhece; é baixinha, é verdade, mas tão bem feita, tão graciosa... e uma cara!... linda a mais não poder ser! Oh! nos meus bons tempos vi bastantes mulheres bonitas! e mulheres que faziam furor, que viam a seus pés tudo o que havia de melhor no turf. Pois bem, digo-o francamente, a menina Lisa vale mais que todas ellas...

—Vi ha pouco essa rapariga, foi a ella que me dirigi para dar com a sua escada, pareceu-me, com effeito, muito interessante.

—Interessante! oh! isso é pouco; ella é mais que interessante! e depois um coração! uma bondade! quando estou completamente á divina, como eu lhe dizia ainda agora, é ella que me soccorre. Um dia, havia eu parado deante da sua porta, que estava aberta, tinha fome, e arrisquei-me a dizer-lhe: «Minha vizinha, não terá por ahi um boccado de pão que me dê? não tenho migalha em casa.» «Tem fome!...» exclamou ella, e correu logo ao armario a buscar-me pão e um pedacito de queijo, que me offereceu, dizendo-me: «Tome, não lhe posso dar mais nada, não tenho vinho...» «Oh! isto é bastante, lhe disse eu, e a menina é um anjo de bondade!» ella accrescentou: «Quando lhe faltar pão, venha pedir-m’o, não se constranja, é-nos preciso tão pouco a mim e a minha avó, que sempre tenho de sobra.» Aqui tem o senhor por que eu chamo a essa rapariga um anjo; vê que tenho razão, faço por não abusar da sua bondade, mas algumas vezes, mesmo muito amiude, vejo-me obrigado a recorrer a ella... então que quer o senhor? parece que estava no meu destino o ser sustentado pelas mulheres; por isso chamo á menina Lisa a minha namorada. Mas d’esta vez é honestamente! respeito essa pequena, tanto quanto a estimo; faço mais, escuto os seus conselhos, ella ralha commigo ás vezes, quando venho para casa bebedo...

—Mas não segue esses conselhos?

—Não sigo, é verdade; ainda hontem me emborrachei... que quer! a força do habito. Tambem, quando estou bebedo, não ha perigo que eu pare para conversar com Lisa; pobre pequena! a sua bondade para commigo é tanto mais meritoria, que ella trabalha sem descanço para sustentar sua avó, que está paralytica, algumas vezes á meia noite, á uma hora, sinto-a a trabalhar ainda... e então grito-lhe: «Vizinha! isso é de mais, velar até tão tarde, vá descançar, olhe que pode adoecer com tanto trabalho!» Ella responde-me alegremente: «Não, não! o meu divertimento é coser; depois, não tenho somno.» É realmente extraordinario que n’uma rapariguita haja ás vezes mais coragem para o trabalho do que em cinco ou seis homens robustos com eu!

Casimiro tem escutado mui attentamente tudo o que Rouflard lhe tem dito da menina Lisa. Isso ainda lhe dá que reflectir. Mas Rouflard, que acabou de vestir-se, faz tinir os dez francos que tem na mão, e diz-lhe:

—Perdão, meu caro vizinho, mas a fome aperta commigo, eu não o ponho fóra... o senhor pode ficar aqui se se diverte com isso, eu porém peço licença para me ir confortar.

E, sem aguardar a resposta do rapaz, Rouflard sae pela porta fóra e desce rapidamente a escada, escutando apenas a Casimiro, que lhe grita:

—D’aqui a uma hora... em minha casa!... não se esqueça!...