Se não teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por artistas, não pode caber ao autor a culpa de faltar entre nós uma companhia dramatica nacional constituida de profissionaes.
A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle é perversa occultando-o propositalmente para ferir a Talitha; se não sabe, é ignorante, e uma critica soi-disant competente, que desconhece o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, não póde exigir consideração nem respeito do meio litterario em que pretende pontificar.
«Il y a même, au fond de la grande majorité des critiques, un producteur manqué, qui se regisne à parler des œuvres d'autrui, quand il voit que personne ne parle des siennes.»
Zola, œuvre cit., pag. 349.
A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua,} esqueceu que Taine, o mestre supremo, havia pontificado:
«La méthode moderne que je tâche de suivre, et qui commence à s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer les œuvres humaines, et en particulier les œuvres d'art, comme des faits et des produits dont il faut marquer les caractères et chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.»
H. Taine—œuvre cit, vol. I, pag. 14.
Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre invocado: condemnou, não explicou.
Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significação, sem sondar a alma que o creára, fulminou a obra e insultou o espirito que a produzira.
Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que é portuguez e o estylo que não é brazileiro...
E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que Shakespeare fôra buscar á nevoenta Dinamarca a figura culminante de Hamlet, á sorridente Italia dos laranjaes em flôr, as suaves imagens de Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo.
Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da França foram pedir á Grecia e à Roma antigas, á Hespanha medieva e aos Barbaros a quasi totalidade dos seus heróes e das suas heroinas, deixando na obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza épica de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos immortaes filhos da França e as imagens delicadas e formosas das mulheres gaulezas.