De Corneille, Medéa é uma simples imitação de Lucio Seneca, romano, que a seu turno pedira inspiração ao theatro grego; Cid, que é uma obra-prima, além de ser puramente hespanhola a sua acção de altissima tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro, que o genio de Corneille deixou na sombra; Horace é um assumpto romano que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos são Polyeucte, Cinna e Pompée, este inspirado por Lucano; Mentor é o velho personagem da legenda grega de Ithaca, já reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; œdipe e Sertorius, que são lampejos da constellação de decadencia de um genio, pertencem, a primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles já havia immortalisado na scena grega, a segunda é pura historia da Iberia em que o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador da nacionalidade lusitana.
Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da Pertharite e no confronto do seu Attila com a Andromaque de Racine, outro genio que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de Corneille vibrou pela patria, o seu talento não procurou conforto na historia assombrosa da França: o seu coração voltou-se ainda para o oriente, foi á Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e deixou na Imitação de Christo a ultima expressão do seu genio, como o raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso.
De Racine, póde-se affirmar que escreveu as suas tragedias inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia.}
Assim o ensina um sabio mestre brazileiro:
«deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade da concepção, porém mais tocante na pintura dos accessorios e que maior conformidade offerecia com o seu talento.»
São d'esse genero a Andromaque, Mithridates, Phèdre, Iphigénie.
São inspiradas na Biblia, a Thébaïde, Esther e Athalie.
Pertencem ao genero historico: Alexandre, Berenice, Britannicus. E ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a comedia Les Plaideurs, que é uma charge temivel de espirito e de genio, foi pedir ás Vespas de Aristophanes, não só a inspiração, mas o exemplo, o paradigma.
Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao Theatro da França que não as repudiou, que as ama, que as admira, cultuando a memoria dos genialissimos poetas, não obstante o haverem elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas figuras orientaes.
Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para escrever a maravilha dramatica de Cromwell, deixando no esquecimento a soberba grandeza de Danton! Para dar á Escola romantica a sua data inicial no Theatro francez, o grande poeta das Folhas de Outono foi buscar á Hespanha a inspiração dos versos maravilhosos do Hernani e deixou á litteratura dramatica da França as figuras esculpturaes de Dona Sol, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata Ruy Gomez.