Mas onde o genio do grande filho de Besançon attingiu a altitude suprema a que não chegaram Corneille no Cid nem Racine na Phèdre, foi no Torquemada, a epopéa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado á historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo, illumina-a com as fulgurações do seu genio, como se em torno da cariatide monstruosa da Inquisição ardessem as fogueiras dos autos-da-fé, e liga á litteratura dramamatica da França a figura barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja.
No emtanto, na historia da França havia a linha cruel de Luiz XI, algoz do duque de Alençon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime.
Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: Eloah, Symeta, Dryade, Fille de Jephté, Femme adultère, Dolorida, Deluge.
Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton, cujo heróe é o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos, procurou no suicidio a solução para a vida das amarguras e tristezas que arrastava o seu genio incomprehendido.
E Alfred de Vigny, tão admirador de André-Chénier que n'este procurou inspiração para a sua Dryade, deixou no esquecimento a figura soberba e tragica do poeta da revolução, cuja cabeça rolou no cadafalso como uma cabeça vulgar, não obstante:
«avoir quelque chose là dedans»
E a França não engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a Comedie-Française em 1881 fazia a sua reprise, com alto successo, não obstante a opinião do Zola que a reputa:
«la negation du théatre.»
A critica, severa para mim, devêra ter vergastado primeiramente a memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua espada de guerreiro a obra politica da emancipação da Grecia; devêra anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a reconstituição da vida romana á época da decadencia cesarista de Nero; devêra ter condemnado á morte M.me Judith Gauthier, a filha gentil e talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herança paterna, preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japão e na China; devêra ter amaldiçoado e reduzido a pó o sublime poeta contemporaneo da França—Edmond Rostand—que engastou nos tres actos phantasticos da Princesse-Lointaine um assumpto oriental e na Samaritaine, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da filha da Judéa, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna d'Arc; devêra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos Recuerdos d'Italia, sem ter jámais escripto uma pagina de viagem pela propria Hespanha, sua patria; devêra ter castigado os despojos funebres de Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspiração hombrea com as de Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial é, depois de Shakespeare, a creação mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao berço da tradição adamita, procurar o assumpto do seu Paradise Lost.
E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi para o obscuro autor da desventurada Talitha, devêra censurar amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura épica do riograndense Tamandaré, lobo dos mares como o piloto de Palos, além de guerreiro como Patterson.