E a censura devêra estender-se tambem a Gonçalves de Magalhães que, em vez de cantar o heróe dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi que vive na tradição da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de João Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi á historia de Milão pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia Olgiate, em cuja acção se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo Visconti e o assassinato do tyranno.

E a critica, tão rispida com o autor da Talitha, chegando mesmo a citar a sentença do divino Almeida Garrett para aquelles que se abalançam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devêra começar pela censura ao proprio autor do Frei Luiz de Souza, que iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo Xerxes, Lucrecia, Sophonisba, Atala, Meroppe e Catão, antes de se lembrar que D. Filippa de Vilhena fôra uma das heroinas de sua terra.

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Mas a critica, severa com o autor da Talitha, não tem sinceridade nos seus conceitos.

Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta ás emoções do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da Carmella, um encanto, uma joia.

A acção do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se claramente na escola de Massenet, sóbe á scena no Rio de Janeiro interpretada por artistas italianos, sóbe á scena em Porto Alegre interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio, extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a Carmella é italiana pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense não se julgou melindrado porque o intelligente maestro patricio deixou na obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o céo, a aventura da gloriosa e divina Italia da arte...

A critica emmudeceu.

Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue é genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento intellectual e moral...

A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas... passons là dessus.

«Dès lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier l'œuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...»

Zola—Documents litteraires, pag. 418.