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Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a Talitha, condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada, superior á modestia das suas condições de aldeãos.

A critica é futil e não sabe o que diz.

Talitha falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura.

A sua linguagem é simples, ingenua e lyrica.

Mas simples, ingenua e lyrica é a linguagem do povo portuguez, desde a sua infancia até hoje.

As imagens que o autor lhe põe nos labios são as mesmas que borbulham na phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade, affirmada num folke-lore riquissimo e inexgottavel, desde Guesto Ansures até Antonio Fogaça.

Pois a uma creança de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta, intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura, póde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou aos oito annos?

Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cégo que escreveu a Noite do Castello, as Cartas de Echo a Narciso, os Ciumes do Bardo, a Primavera, o Outono e cégo é o anonymato popular que produz ha oito seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que andam na tradição oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o Cancioneiro de Garcia de Rezende e de El-Rei D. Diniz até o Romanceiro de Garrett e os Cancioneiros de Theophilo Braga e Gualdino de Campos.

São da poesia popular, são do povo em cujo seio Talitha nasceu, cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro, Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam.