I Nessas tuas mãos pequenas
como não vi em ninguem
não sei como as minhas penas
couberam nellas tão bem.
II Perdes mais em me perder
do que eu perco em te deixar:
perco quem sabe offender,
tu perdes quem sabe amar.
III Dizes que deixo saudades,
não me posso conformar:
pois se eu as levo commigo,
como t'as posso deixar?
IV Acostumei tanto os meus olhos
a namorarem os teus
que de tanto confundil-os
nem já sei quaes são os meus.
V Se os meus olhos te incommodam
quando estão na tua frente
hei de arrancal-os um dia
para te amar cegamente.
VI Se eu soubesse que voando
alcançava o que desejo
mandava fazer as azas
que as penas são de sobejo.
VII Eu jurei que não tornava
a dar adeus a ninguem:
quem parte saudades leva
quem fica saudades tem.
VIII Essas tuas sobrancelhas
como nunca vi mais bellas
são laços de fita preta
unindo duas estrellas.
IX Não sei que quer a desgraça
que atraz de mim corre tanto,
hei de parar e mostrar-lhe
que de vêl-a não me espanto.
X Vae alta a noite, vae alta,
mais alto vae o luar,
mais alta vae a ventura
que Deus tem para me dar.
XI É tua bocca ideal
um palacio com jardim:
as portas são de coral
os degráos são de marfim.
XII Aguas passadas não tornam;
deixae fallar o dictado:
ó saudade, és um moinho
móes com aguas do passado.
XIII Pára tu, meu coração!
onde estou eu, onde vim?
triste caminho de lagrimas
tem começo e não tem fim.
XIV Ouço cousas que não ouço,
vejo cousas que não vejo:
olhos da minha saudade,
ouvidos do meu desejo!
*
E a um povo que assim traduz tão lyricamente, com tanta philosophia, com tanto sentimento, todas as impressões da sua alma dôce, que assim vibra essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas, nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera, póde-se, com justiça, arrancar essa linguagem que é caracteristica?
O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus personagens, para que estes não pareçam superiores ao seu meio, mentiria á propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria.
A um velho cégo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua desgraça, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a tradição religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria popular estuava nas danças e folguedos; o rapazio espantado escutava-o com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza das suas lamentações havia verdade de conceitos e a revolta justissima de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza.
Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle, que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raça, filtrada na arêa branca e pura de uma tradição de oito seculos.
Diz toda a gente e eu não nego
que Deus é pae de bondade,
mas se isso é pura verdade
como foi que eu nasci cégo?
Lá que Deus tirasse a luz
a quem rouba ou assassina,
era a justiça da sina
que todo o mundo conduz.
Mas a mim, não foi clemente
porque eu não tinha nascido;
é que Deus tinha o sentido
de cegar um innocente.
Aos lobos que andam na serra
matando ovelhas e anhos,
dizendo mal aos rebanhos
Deus não castiga na terra.
Não ha lobo que não veja,
todos são filhos de Deus,
só nos tristes olhos meus
a eterna noite negreja.
Não tocaria viola
se eu fosse fera damnada,
mas não andava na estrada
soffrendo e pedindo esmola.
*
Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, não curou de saber se no Paraiso a Mãe dos homens fôra educada pela serpente nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem alcandorada, nem cogitou de saber se já naquelle tempo, no pincaro da cordilheira industanica, se fallava o inglez.
A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poço de Jacob, já se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta, brilhante, artisticamente disposta sob a fórma severa que Boileau, Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois.