De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o meio que influiu na producção da Talitha, não tem noção, sequer, do estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, é ignorante e, como todo os ignorantes, é pretenciosa, balofa e petulantissima.
Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a sublime pastoral—Os Velhos—de D. João da Camara, cuja acção se passa em uma aldeia do Alemtejo.
Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu á representação dessa obra prima, extasiou-se e não viu que na formosa comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, não cinco, mas nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a acção da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade.
Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. João da Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles personagens, aquella acção, aquelle ambiente correspondiam á realidade objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisação occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras, virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento máo, sem uma palavra rude, sem uma acção menos digna.
Ha nos dois primeiros actos da Talitha uma profunda tristeza, a amargura soluça em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma explosão de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso que vae ao exaggero, diz a critica.
A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento religioso, o culto catholico, a tradição christan, porque nunca viveu na intimidade daquelles lares; o que lobrigou, através da obra suspeita e viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos grandes centros, envenenou-lhe a alma já preparada para receber a semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos gabinetes, acceitou as indicações da alma perversa de algum mentor sem sinceridade, explorador da inexperiencia de creanças talentosas e esqueceu a lição de Taine:
«Pour plus de clarté, nous prendrons un cas très simple, simplifié exprés, celui d'un état d'esprit dans lequel la tristesse est predominante.
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«Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public attristent aussi l'artiste.
«Comme il est une tête dans le troupeau, il subit les chances du troupeau.
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«Sous cette pluie continue de misères personelles, il deviendra moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste. Voilá—un premier effet du milieu.
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«Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les objets le caractère essentiel et les traits saillants: les autres hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit. Et comme ici le caractère saillant est la tristesse, c'est la tristesse qu'il aperçoil dans les choses.»
H. Taine—Op. cit., pag. 68 e seguintes.
Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:
«O que deu nascimento, entre elles, á noção de fatalidade é uma concepção que se refere, não ao futuro, mas unicamente ao passado; o que é, é, e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto concluido não existisse.»
A poesia e a arte no ponto de vista philosophico.—Cap. II, pag. 50.
O modesto autor da Talitha não podia fugir á acção do meio em que se encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia oppôr á verdade: o que é, é, e um facto concluido, poder algum o annulla.