Se o autor transformasse á medida do seu desejo, pensando em ser agradavel á critica, mentiria á sua consciencia, deturparia as leis da arte: os zoilos pódem maldizer, á vontade, o autor fica tranquillo e contente com a fiel observancia das lições de Taine e do escriptor brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau.
O facto é verdadeiro, era sufficiente que fôsse verosimil: o autor da Talitha dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras e a redempção dos seus personagens pelo amor,
«l'amor che muove il sole e l'altre stelle.»
O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitação da critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do elogio mutuo e a paixão, a animosidade e malquerença politicas.
Zola pontificou:
«Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rève de distribuer des coups de férule.
«Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux idées nettes dans la tête. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De lá les jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue de verité et de justice qu'il faudrait y parler.
«Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens.
«Le vent qui les apporte, les emporte.»
Documents litteraires; la critique contemporaine.—pags. 346, 347.
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O assumpto da Talitha é portuguez, portuguezes são os seus personagens, portuguez o meio em que a acção se desenvolve, portugueza foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua mocidade: o drama não podia deixar de reflectir
«l'état général de l'esprit et des mœurs environnantes.»
De profundas amarguras, de lacerantes provações para o povo portuguez foi a época dolorosa em que o modesto autor da Talitha aprehendeu em flagrante o desenrolar da acção dramatica do seu poema lyrico: e essa éra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge, a sua maxima intensidade.