Portugal acabava de receber o ultimatum inglez na questão pungentissima das possessões africanas, a natureza fôra de uma dureza extrema: ás innundações dos invernos succedeu a crise agricola que esmagou a producção vinicola pela invasão phyloxerica, as agitações politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos ameaçando as instituições monarchico-religiosas de sete seculos e, em meio dessas provações a Providencia, esquecida da immensa piedade d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em que não soffre solução de continuidade o culto da divindade catholica, fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo: Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro, Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d'Avila, Eça de Queiroz, Alexandre da Conceição, Raphael Bordallo Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a luminosa região dos seus cerebros geniaes com a inferioridade crudellissima de uma bala.
Da nova geração, Antonio Fogaça, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz Barreto seguiram a estrada da morte.
A crise economica era pavorosa, a emigração clandestina assustava os espiritos mais fleugmaticos, á questão ingleza, seguiu-se a revolta de 31 de Janeiro e a situação geral era tão delicada e complexa que nem o genio de José Dias Ferreira, nem as combinações politicas de homens como Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver.
Ao desequilibrio financeiro succederam a questão monetaria e o augmento da divida publica, fortemente aggravadas as condições do credito publico pela questão internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos escreve:
«Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade portugueza estrebuchando no esphacêlo, ha quem tenha perdido de todo a esperança de regeneração; ha quem se persuada que estão chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em grande parte este excesso de pessimismo.
«Portugal, como todas as nações contemporaneas, em maior ou menor gráo, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos variadissimos. É uma crise politica, financeira, economica, mas sobre tudo social e moral.»
Teixeira Bastos—A Crise, pag. 435.
Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu poderosamente na producção artistica e litteraria d'aquelle tempo e na que se seguia.
Na esculptura destaca-se a estatua de Hermengarda em que o talento de Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos.
Na architectura não surge cousa alguma que atteste a sublimidade do caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herança do passado, soffre a influencia do desanimo, da indefferença, da tristeza geral que domina.
É de Ramalho Ortigão o que se vae lêr:
«Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos architectonicos da nação...
«Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia do desdem: os segundos são um resultado de incapacidade.»
Ramalho Ortigão.—O culto da Arte em Portugal, pags., 19 e seguintes.