Quanto á vida e a producção litteraria, o autor da Talitha invoca o depoimento do grande critico portuguez; é elle quem affirma:
«Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de portugal faltam corações portuguezes.
«Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual.
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«A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas.
«Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da raça, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de imposição e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventureiro e destemido.
«Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimentos.»
Ram. Ortigão.—op. cit., pag. 110 e seguintes.
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Embora modesta a Talitha, embora sem merecimento o seu autor obscuro, como poderiam ambos—drama e escriptor—fugir a esse estado geral do espirito e dos costumes, de que falla Taine?
Necessariamente deveriam obedecer á lei, e por isso apparece nos dois primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que é o reflexo da situação geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade.
«D'autre part, l'artiste a été élevé parmi des contemporains mélancoliques; partant, les idées qu'il a reçu et celles qu'il reçoit encore tous les jours sont mélancholiques.
«La religion regnante, qui s'est accommodée au lugubre train des choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir»
H. Taine—op. cit., vol. I. pag. 65.
Aliás é profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza desse tempo, muito principalmente na poesia.
É um soluço de magua—o Espirito Gentil—de Luiz Ozorio; formam um rosario de amarguras—as Orações do Amor de Antonio Fogaça; é um gemido crudellissimo o Só de Antonio Nobre; é como um echo de Necropole—Nada—de Julio Dantas.
No theatro, Marcellino de Mesquita lança a Noite do Calvario, reproducção profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da vida de um lar que o dramaturgo generalisa ás condições da vida social, aliás já cruelmente desvendada nos Castros.
Para fugir á influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado, á chronica, a historia e não consegue eximir-se á impressão da desventura: O que morreu de amor é uma resurreição esmagadora de magua; a Severa é um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; O serão nas larangeiras é uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que occulta, mascára, e pinta um immenso abatimento moral.