Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da Talitha compõe-se de 492.
A Ceia dos Cardeaes tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da Talitha dispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%, nesta é de 25%.
Na Ceia dos Cardeaes ha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no 1.° acto da Talitha ha 80.
Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, na Talitha, a condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na lingua e fel no coração.
A Samaritana é a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica europea, assim a julga o proprio poeta.
O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.
Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas.
Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é pobreza ou riqueza de rima.
A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas, que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho da Talitha.
Collocar nos labios de Joaquina versos de rima escolhida, apurada, sem repetições de termos que andam constantemente na conversa commum, substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo rimador, o sentimento pela paciencia.