A opulencia da rima importaria necessariamente na elevação da linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de aldeia a linguagem que o autor da Talitha confiou a cada um d'elles.

Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples, corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros termos, em phrase diversa, não é comprehendido.

O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina superiormente:

«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do povo—que é realmente pobre—mas da litteratura do seu tempo.»

Citação de Elysio de Carvalho no livro—As modernas correntes estheticas, pag. 27.

Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias, dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não creou na vida real.

Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve ser alcandorada sem inverosimilhança, os personagens vem distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que substituem toda a realidade objectiva.

A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo, Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima.

Zola escreveu:

«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de ce bas monde.

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«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.

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«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être vraisemblables.»

Zola. Le Naturalisme au théâtre, pag. 357, 358.

Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor, esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como uma parábola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um acto Horacio e Lydia, romana pelo assumpto, grega pela technica.